terça-feira, 26 de abril de 2011

Escrevo por forças de um impulso que diz que o faço mal, mas se não o fizer, não melhorarei.


O café não inspira mais, só doem as têmporas e me faz comprimi-las com os indicadores para evitar uma explosão com miolos manchando o tapete bege do escritório, cor de burro quando foge desbotado.
Esforço-me em acreditar em sentido, em predestinação, em correr atrás e conseguir, mas esbarro no sono sob o lençol quente de manhã. Esbarro nos sonhos sobre o fim do mundo. Tão bonitos, trágicos, com cores incompreensíveis a luz do dia. E o mundo acaba e eu só sinto uma necessidade de dormir mais para saber o depois. E acordo. Merda de despertador. O que vem depois da Terra saindo cinco graus do eixo e dos maremotos e do sol com cor violeta?
Bebo café. Primeira xícara. Estou bem. Passa o dia. Segunda xícara seguida logo da terceira. Estou bem. Meia hora depois, têmporas esmagadas, nuca constantemente apertada com a palma das mãos. Estalos no pescoço. Crec, lado direito, crec crec crec, esquerdo. Relaxante. Vai consumir minhas cartilagens e vou me arrepender disso na velhice.
E o mantra na cabeça, martelando com um toc toc: ninguém lê para assistir ao exercício vernacular do próximo.
Eu sei, mas ninguém lê mesmo que eu o faça diferente.
Professora do caralho, vou me lembrar da crítica sobre conexão entre as frases. Elas nunca se conectam porque eu não penso de maneira linear, eu queria ter dito, mas salvei o recado como exemplo da minha incapacidade textual.
O próximo passo é abandonar o café e recorrer a inspiração pela bebida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

qualquer lugar


Soube que estava em casa quando a amiga, aquela eterna, de segredos incontáveis, virou na esquina, à esquerda, Consolação com Maria Antônia, fazendo com que ela seguisse sozinha, por mais seis quadras. O trajeto era o mesmo de anos. Conhecia putas, mendigos, garçons.  Sabia identificar trombadinhas viciados em cola e diferenciar de pobres coitados de calçada. E até se colocava do lado mais seguro, para tentar se proteger do nada. Era sua casa. Poderia andar ali mesmo que estivesse fora de si – e chegaria bem.
O desenho geométrico do calçamento quase em nada se entendia com aquela cidade desordenada, de prédios que a faziam se sentir segura, mesmo que em perigo. Estava em casa, sabia. Mesmo com o cheiro de podre que pairava no ar aos domingos, o dia em que o serviço municipal de lavagem de ruas não funcionava e deixava o ambiente mais austero, quase que afastando as pessoas. A ela não. Era sua casa. Mesmo que tivesse que apertar um pouco mais a alça da bolsa contra o corpo, conseguiria chegar ao número 43 todos os dias em segurança.
A cerveja, nas mesas daquela rua imunda, tinha um gosto conhecido. O mesmo que a faria sentir leves pontadas na cabeça ao chegar em casa, sempre de estômago vazio, um pouco pela falta de dinheiro, mas mais por preferir gastar tudo com bebida e não com batatas, na companhia da amiga. Sempre aquela boa amiga, confidente de pensamentos impublicáveis e risadas tristes de nostalgia da vida que deixavam de viver enquanto vivam as tentativas de felicidade. Sim, eram felizes de certo modo, mesmo que ainda não fossem livres.