segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

O incrível dia em que resolvi escrever uma carta.


Olá.
Inicio essa carta como inicio tantas outras, com um “desculpe por escrever, mas é isso que sei fazer”.
É mentira. Eu sei fazer outras coisas e devo fazê-las melhor que escrever. Mas é hábito. Mais que isso, um vício. E vícios são ruins, então, entenda essa carta como bem desejar.
Venho por meio desta pedir que você me dê atenção. Sim, atenção. Eu preciso de atenção. Ser olhada, acarinhada, abraçada e , mais do que parece, ser acalantada em minha cama ao som de uma das coisas mais complexas do universo: o silêncio.
Venho por meio desta pedir que você me dê isso sem esperar retribuição. Não que você espere, longe disso, mas preciso desses momentos e destes regalos mais do que parece e não quero recebê-los como mérito por ter iniciado a sessão de carinhos.
Por vezes, as pessoas se mostram fortes. Fortes, tão fortes que nem dentes do siso são capazes de lhes causam abalo nas estruturas. Mas essas mesmas pessoas não são fortes quando chega o domingo à noite e a música do programa dominical entope a sala de casa, lembrando-lhas que ainda não foi posto um fim à dicotomia “final de semana X dia de semana”.
Mesmo as pessoas fortes têm dias ruins. Só que as pessoas fortes têm medo de pedir abraços e quando o fazem, engajam uma piadinha sem sentido para disfarçar o momento. Eu sou forte e tenho medo de pedir abraços. Eu sei do que estou falando.
Mas preciso disso. Só um pouco. Só até eu achar que o mundo não é tão ruim quando se perde a dimensão do que é ser adulto. Só até eu achar um lugar reconfortante para ter certeza que existo. Só para deixar de ser a responsável por minha vida. Ela é cansativa e eu não quero mais cuidar dela. Não hoje. Não quando eu perco a hora, perco o rumo, perco a noção do líquido no copo. Não quando perco o brilho nos seus olhos.
Só quero um abraço. Sem troca, nem devolução.

ps.

Saldo do ano


Muitos quilos a mais. Muitas roupas a menos. Amizades que vão se estreitando. Outras que vão embora. Amores. Desamores. Em medidas distintas e não necessariamente nessa ordem. Cabelos brancos. Rugas. Ou quase rugas. Lapsos de tristeza que se sobressaem a felicidade. Sono. Insônia. Cansaço quase insuportável. Acho que é chegada a hora de mudar.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

lapsos


O silêncio tornou-se incomodo e com sorriso contido ela tentou desviar de um assunto a outro, esperando preencher um buraco que só existia dentro dela. A ansiedade de viver fora barrada pela vida que não queria. Não sabia mais onde suas escolhas a levariam. Ansiava pelo novo como um filho. Estava grávida do futuro, sem pai nem avós para sustentar uma gestação amena ou garantir os períodos de resguardo.
Pela manhã, com os olhos embaçados, lembrou de seus pensamentos ao olhar o amado. Fluíam com rapidez, inspirados, sempre perdidos por falta de papel. Por ele escreveria livros infinitos, desde que pudesse estar ao seu lado para admirar cada respiração e cada piscar de olhos. Jamais seria assim. Você não tem toda a minha atenção, ele disse na noite anterior, sem esperar a mágoa.
O encanto acabou com a chegada de uma realidade banhada de cansaço do amor demasiado grande. Já não solvia dela o desespero da covardia. O medo não habitava seus olhos, apenas os dela. Os casais demoram a acertar os ponteiros do coração para que estes batam em uníssono. Ora amaria mais, ora menos. Ela sempre mais, num ardor angustiado. Ele sempre mais, numa calma sonolenta de quem não teme o futuro por crença na felicidade.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

ainda


A comida tem gosto igual. Não importa o que seja. As falas. As notícias. Os sorrisos. Iguais. Ainda. O grito é o mesmo. Entalado na garganta, contido, trocado diariamente por expressões educadas e cumprimentos cordiais. Não se grita mais. A sensação de repetição dá espaço ao desespero de quem não quer saber nem o próprio nome, nem a própria história, nem os pratos preferidos. O novo não chega. Quando vem é diluído em rotina, igualando-se ao todo. O nada não existe mais. Não se pode não ser. Desde o bom dia o dia é igual. Não precisa mudar as horas. A essência é a mesma. Um nada fantasiado de existência.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

out of control


Você está desperdiçando energia que poderia ser gasta em outras coisas, disse o mestre, enquanto empurrava seus pés para que se adequassem ao asana. Soou como uma daquelas profecias que insistimos em ver onde não existem, mas que tendemos a ignorar quando nos parecem verdadeiras demais.
Passara a semana tentando em vão controlar os fluxos respiratórios. Inspira. Expira. Era um mantra interno que a fazia temer o sufocamento em caso de distração. Sufocaria, cedo ou tarde. Não detinha o domínio de seu corpo, entretanto, queria provar para sua mente doentia que podia obrigar os cotovelos a dobrarem no exato momento da expiração.
O suor escorrendo pelo rosto. Incomodo como uma formiga descendo pelo ponto inacessível da coluna. Inspira. Expira. O suor cai. A situação não melhora. Os músculos ainda se contraem involuntariamente e fazem lembrar os espasmos estomacais que tivera tantas vezes diante da privada.
Limpe a sua mente. Concentre-se na respiração. Foda-se a respiração, ela pensa, enquanto tenta assimilar os comandos de contrair o abdômen e alcançar os calcanhares com a ponta dos dedos no exato momento em que se equilibra sobre um dos joelhos, que, já cansado, apela para a dor.
O suor passa. A respiração se acalma. A dor. Essa persiste. Sempre.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

das insônias

Chorava quando não conseguia distinguir sonho da realidade. Principalmente nos dias que os sonhos se resumiam a pesadelos confusos sobre perdas irreparáveis.  Ora o fim do mundo, ora o fim do seu mundo, com ele indo embora para não se sabe onde sem qualquer razão definida. Acordou com dores no coração, apertado como se tivesse a beira de um ataque. Era medo. A iminência de perigo enrijecia os músculos, inclusive os da parede do estomago, o primeiro a sofrer com os lapsos de calafrios. Ouviu a voz. Ainda sonolenta. Não lhe trouxe muito alívio. Trouxe lágrimas, como que confirmando que o sonho ainda era irreal e que seria necessário manter os receios ao longo do dia. A espera infinita de uma previsão quase profética. Não fosse o horóscopo agraciando com notícias de futuros mais amenos, teria parado de respirar antes do almoço.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

mudanças climáticas

O reflexo do sol por entre as árvores lhe dava uma sensação de embriaguez. Era como se brincasse de criança girando e ficando tonta enquanto olhava para a luz que se escondia e, logo em seguida, ardia nos olhos para lembrar-lhe da existência da retina.
O azul forte no céu marcava o início de um dia que não tardaria a mudar de clima, como bem anunciara as moças do tempo na televisão. Previsão é um mercado em ampla expansão nesses tempos incertos. O esplendor de fotografia desfez-se quando a primeira lágrima do dia caiu, lembrando-lhe que as luzes brilhantes se desfazem quando as persianas são fechadas. A vida não é um sonho, pensou (ainda que tardasse a se conformar com o fato).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

pretérito imperfeito

Acordou. Chorou. Fechou os olhos novamente e adormeceu. Agora seus sonhos já lhe eram mais agradáveis que o acordado. Chorava sem causa definida ao despertar. A realidade, que apenas ela sabia ainda que negasse, é que lá no fundo a causa era o acordar.
Alternara os últimos dias entre a irritação desmedida, a apatia generalizada e a desolação de quem sofre uma tristeza crônica. Já percebia no espelho os sulcos na pele, marcando a parte arroxeada abaixo dos olhos, aquilo que as revistas chamam de olheiras e que ela pensava ser velhice. Envelhecera de fato. Mirava as fotografias, mesmo as tiradas no dia anterior, com acessos de nostalgia, banhados por uma sensação de não pertencimento e saudade daquela criatura feliz que não fora. Mas se não fora, por que sorria tanto? Não conseguia intercalar o passado com o presente e o futuro, seguindo a ordem lógica que as professoras de português lhe ensinaram na escola. Adorava a parte de conjugação de verbos. Tudo parecia tão bem colocado ao seu tempo. A infância permite essa visão ampla e tranqüilizadora, sem as atribulações do amanhã e os arrependimentos do ontem. O encanto se perdera aos poucos, consumido por uma ansiedade crescente que lhe obrigava a pensar no futuro, mesmo que esse fosse passar o final de semana com a mãe comprando brinquedos e comendo em sua lanchonete preferida. Percebera, tardiamente, ainda que muito jovem, que o pensamento no futuro engasgava o presente e a condenava a uma sessão de arrependimentos sobre erros passados. A estrutura lógica por vezes se parte em pedaços não tão simples de organizar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

abrazos rotos


Consumiam-se em desesperos internos e compartilhados. A dor era a mesma. Inexplicável e sem causa definida. Mas doía. E, como se previssem o futuro iniciado pelo erro da noite anterior, corrigiram-se o quanto antes, sufocando os medos num abraço mudo em um dia em que nada mais importava a não ser estar junto sem nomenclaturas para distorcer a perfeição do silêncio.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

se pudesse nomear o dia, ele se chamaria tristeza.


Errou as palavras. Errou ao concertá-las. Errou um tanto mais quando explicou todo o engano. De erros consumiu-se, só por enxergar o exato momento da ruptura. Com mágoas cobriu-se, num abraço insistente de quem não queria perder o sono. Por culpa de pesadelos revirou-se, numa noite tempestuosa sem barulho de chuva para amenizar os doloridos da alma. E temia que os braços ficassem longe demais para ela alcançar, pobre menina, tão pequena. E quanto mais queria, perdia. E errava, num erro constante de quem quer ser feliz... mesmo quando de fato o é.

metáfora para cortes doloridos #1


...é quase a mesma coisa daquela garrafa que você cortou com lâmina fina. A água sai por vincos quase imperceptíveis. Lentamente. Sem deixar-se abalar pelo desejo de esvair de uma só vez.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

listas (desconectividades #7)


Sair de casa Pagar conta Passar na biblioteca. Nietzsche, Kundera ou Amos. Uns vinte autores e o dobro de prateleiras. Eu resolvo na volta. Perfumaria. Shampoo Pasta de dente Sabonete. Merda esqueci o cotonete outra vez. Mercado. Papel Comida Será que levo um doce Acho que cerveja e petisco resolve. Ônibus. Esqueci de carregar o bilhete e de noite vai fazer falta. Liga Desliga Passa relatório Entrevista Escreve. Come porque comer é evento social Preciso parar de almoçar tão cedo e com essas pessoas. Senta Escreve Entrevista. Come Agora de fome mesmo. Academia Corre Pula Preciso comer mais banana e comprar um tênis novo. Esqueci de ligar para a moça da depilação e dar o telefone que ela pediu no mês passado Amanhã eu faço. Oi amor Cheguei em casa sim. Estou bem e você Corrido Tudo bem Eu ligo depois. Lava Arruma Banho Leitura Televisão no mudo Cama.  Não dorme O sono já chega Se acalma Para de passar a lista na cabeça O dia já acabou

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

um tal viver (desconectividades #6)

Defina viver. Defina em teorias de final feliz ou começo feliz ou enredo completamente feliz. Mas não se esqueça de entrar no mérito de que ninguém vive pensando que está vivendo pra valer. Não dá para encarar a vida no tal presente se nos detemos a pensar nela nesse tal presente. É a loucura instaurada. Será que estou vivendo? Será que estou dedicando a cada segundo a minha felicidade? É a abstração em outra escala. Pare de buscar e comece fazer, aqui agora. Pare de pensar e viva. Mas vivo ou penso ou penso que estou vivendo? Ou respiro? Ou ouço as piadas infames do dia e tento achar graça nelas para pensar que o dia não consiste numa felicidade completa? Ou aceito que a felicidade não existe e vivo? Que ela não existe, creio que todos sabem. Mas e a vida? E essa vida pensada? Ou arrastada? Ou parada? Quem define? Quem pensa? Quem instaura o momento “Viva!” no calendário e deixa todos livres para simplesmente viverem? Não conseguiríamos. Passaríamos o tempo pensando e planejando e morreríamos achando que um dia vivemos. Quem sabe...
Com sorte, sim.

flores

Compraram flores e arrumam os vasos da janela.
E por alguns instantes eram tudo o que queriam ser.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A bolha.


Depois de ler alguns textos sobre onde está a felicidade, assistir palestras sobre como a filosofia mostra um caminho para um mundo melhor, ouvir discursos apaixonados de quem não sabe mais onde fincar os pés e se agarra a qualquer teoria de viver para achar sentido no mundo e fazer terapia para encontrar seu eu interior, só conseguia definir uma coisa: havia uma bolha que circundava sua cabeça e a deixava confusa, sem saber para que lado andar. Dar uma chance aos seus semelhantes ou viver a própria vida com mais intensidade? Amar quem está ao seu lado ou amar a si em primeiro lugar? Comprar, já que dinheiro ninguém leva para o túmulo, ou não comprar e se desligar dessa sociedade capitalismo que só valoriza o consumo? Cuidar de seus planos ou trabalhar sem saber direito para que ia ao escritório todo dia?
Se deparou com infinitas estradinhas que levavam só deus sabe onde. Nada parecia estar ligado. Sem mapa nem guia turístico, optou pela escolha dos covardes. Virou as costas e foi para casa se drogar, já que assim conseguia ser tudo isso sem deixar de ser as outras coisas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

do injusto tempo


- Ah, éramos tão jovens... –  suspirou olhando a foto.
(a imagem em questão havia sido tirada há poucos meses)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

.amores.amoras.

quando eu chegar, saiam correndo, como sempre fazem. não é de medo, eu sei, é para mostrar todas as coisas que vocês descobriram nesse pouco tempo de mundo. depois, me deem o beijo que eu vou pedir. e sentem-se no meu colo, uma de cada lado, porque para vocês, minhas pernas tem estrutura de aço e jamais deixarão de servir de colo, mesmo quando estiverem grandes. chorem. briguem. mas não se esqueçam de me dar sorrisos. não qualquer um. o sorriso de cada uma. com aquele ar de que nada mais importa senão sorrir. e pulem. e corram. e façam graça para que eu olhe. eu vou olhar, porque nada mais sei fazer senão olhá-las. e tentem falar que me amam, porque isso eu levo no meu coração quando estou longe. e não fiquem com cara de quem não sabe o que fazer quando eu for embora. eu volto. sempre voltarei.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

live Together, die Alone


As escolhas não impedem o ciclo da vida. As mortes não se abalam com os nascimentos, e estes continuam obstinadamente, como que contrariando o fluxo que insiste em ruir e parecer ruim. Mas ainda hoje se nasce. E se morre. Segundo teóricos, morre-se menos que antigamente, mas ainda nos dias cinza não deixo de achar que a morte paira como que marcando presença para não nos esquecermos dela. E a vida chega, teimosa como de costume. E continuamos onde estamos, porque não sabemos ser muito senão nós mesmos, nessa intensidade solitária que nos espreme entre um caminho calmo e outro, que talvez nos dê a resposta de todos os tempos.

O dia quando.

É quando a eminência de um dia cinza aperta o peito antes mesmo de o sol sair e corrói o sorriso de ontem transformando-o em expressão semanal de quem nada vê de vantajoso em sair da cama. É o aperto de correr a mão a procurar em vão seu corpo em meio aos cobertores. É a mentira no espelho garantindo que o hoje será melhor que ontem e enquadrando um sorriso no rosto pálido de cera, conseguido em longas noites insones. É a necessidade de sair só para manter-se vivo. É quando o jogo anuncia a perda tão logo o jogador se prostra diante do tabuleiro. É o guardar e guardar até transbordar de sinceridade.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

o banheiro.

Era gorda. Quase disforme. Dessas pessoas que deixam sempre em sua mesa, perto do monitor do computador, alguma guloseima, devorada ansiosamente após o almoço. Nesse corpo estranho sustentava uma cabeça que até combinava, mas que exibia uma aura de tristeza internalizada.
De uns tempos para cá se sentia melhor, mais feliz. Abriram um banheiro no corredor perto de sua baia de trabalho. Agora não caminhava até o outro lado para usar um banheiro coletivo. Esse não, esse era pequeno, com uma única cabine que respeitava sua privacidade e não a ofendia tanto quanto o outro, coletivo, cheio, com meninas a circular incessantemente. Esse era bom. Mas ainda a incomodava o cheiro. Aquele odor que só o banheiro consegue captar, destacando para o próximo que entra algo que o anterior gostaria de manter em sigilo. Mas não era pelo simples incômodo. Era a sensação assustadora de que o outro era melhor. Seus odores mais aceitáveis que os dela. Enquanto ela saía do banheiro quase que tentando se esconder para não pensarem que aquele cheiro ruim era dela. E achavam. Era ela a primeira citada nas piadas escatológicas. Era ela a culpada pelo odor que se acumulava ao longo do dia e quase invadia o andar ao final da tarde.
Um dia calmoçou comida nordestina. Sofreu remoendo o alimento no estômago, com a sensação de que ele empurrava o mundo até seus intestinos a fazia ter cólicas. Foi ao banheiro, ao pequeno. Ao sair, tentando o disfarce constante, pôs-se em silêncio, tanto que pode ouvir o que se falava atrás da porta. As reclamações eram de quem passava indagando-se sobre o aroma fétido daquele ambiente. Se saísse, saberiam que era ela. Não saiu. Tentava. Colocava a mão na fechadura. Mas não saiu.
O aviso de interditado na segunda só fez incomodar as demais pessoas, que em seu incômodo não notaram que a barra de chocolate branco comprada na sexta, aquela sexta em que foi servida a comida nordestina, não havia sido comida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

prelúdio

- Mas eu amaria de verdade se quisesse ficar?
- Não. E você seria infeliz.

nem todos os amores esperam.

E se eu fosse embora, tu esperarias? Diria a todos que sentes minha falta e entrarias em reclusão para aguardar meu retorno? E se não tivesse retorno? Sofrerias? Não sabes. Não saberás até que eu parta. Não faças promessas infundadas sobre um amanhã que nem tu nem eu sabemos o rumo. Não te apeteças de antecipar teus sentimentos. Nem os meus. Eu voltaria um dia? 
 tu não voltarias em meu lugar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Eu estava com medo de não te encontrar

A perda era inevitável. Sabia disso desde o primeiro olhar. Era um amor impossível que ela tornara possível assim como fizera com tudo o que muito quis em sua vida. Ainda assim, sabia que o perderia um dia. Que fossem anos luz depois, em suas velhices. Que fosse ainda na juventude, perdendo para outrem. Essa idéia dolorida não era das mais agradáveis, então, desanuviava seu pensamento e olhava os olhos verdes, por vezes escondidos sob as pálpebras preguiçosas daquele que os guardava. E se esquecia de sentir medo. Pois este, o medo, apenas trocara de lugar. Deixara de ser o medo dos culpados - que mantivera em tempos passados - para o medo dos que não suportam perder.

terça-feira, 29 de junho de 2010

senhora do destino (desconectividades # 5)


As coisas não duram, disse ela com a mesma naturalidade com que pedia o chá mate na lanchonete todos os dias. Tentando compreendê-la, o homem pôs-se a ligar passado com presente com perguntas sem resposta com respostas para quaisquer perguntas.
Nada alterou seu pensamento. Ela continuava a pensar na não durabilidade das coisas, ainda sem saber por que insistia em ter tudo a sua volta para sempre, forçando-se a relações estagnadas e com medo de perder aquilo que não fazia questão de manter presente enquanto se esforçava para não destruir o que realmente queria por perto.
Se pudesse descobrir o fim, seria mais simples e tudo planejado. Não, querida, essa é a parte legal da vida, a gente não sabe quando tudo vai acabar. Mas ela sabia... Ela sempre sabia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lost in a cruel paradise

Como não soubesse para onde ir, ficou onde estava, estagnada em pensamentos sobre o que poderia ser feito e não soube.
Caiu num buraco para pensar sobre quem era, mas descobriu-se igual a tudo e irrelevante ao ponto de não fazer diferença o acordar. Não, não era depressão. Não lhe entristecia o viver. Cansava-lhe sim a vida enfadonha, com um ar de repetição constante e desnecessária aos olhos do mundo, a seus olhos. Desnecessária como todos que nesse mundo vivem sem diferenciar-se de um poste. Desnecessária como um operário numa linha de produção, substituível por qualquer formiga que valesse o salário. E vivia. Perdida num mundo que tinha poucas coisas a seu alcance, com a etiqueta detestável da mediocridade colada em sua testa. Tudo médio, nada palpável, tudo transferível e com pessoas descartáveis. Vivia, porque não sabia morrer sem nada ser.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Medos

Ela acordou sobressaltada pelo seu sonho. Havia conseguido o que queria, e se assustou ao ver escapar pela porta de manhã cedo.
Correu, não deu tempo. Ele tinha ido. E levado junto tudo o que lhe interessava: a mágica de esquecer quem era ela.
Agora ela estava sentada, vestindo a camiseta do pijama e esperando que o sofá afundasse e ela pudesse ter novamente seus olhos embaçados por algo melhor do que esse mundo em que ela vivia.

Caçadas (desconectividades #4)


Voava com a fumaça que subia e rodopiava pelo ar como quem quer fugir pela janela e virar nuvem no céu. Antes fosse abóbada celeste. Perguntou-se se existe palavra para quando a gente esquece o que devia ter lembrado. Memorizou-se e saiu destemida a caçar borboletas rebeldes de vento. Rebeldia sem causa de quando a gente percebe que já é grande demais para a jaula que nos aprisionaram com tanto amor. Existe palavra para quando fugimos do tudo o que nos cerca? Existe, linda, chama medo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

diálogos bipolares

- Eu te amo, mas sabe, tem alguma coisa...
- Que coisa?
- Você. Sua existência me incomoda.
- ...
- Sabe, não consigo gostar do seu jeito, das suas coisas. Eu só amo, mas não tem nada que me prenda a esse amor. Tudo em você é dispensável.
O menino levantou, bateu a porta de casa e ficou sentado na escada. Quase não piscava enquanto esperava o elevador.
Ela abriu a porta. Olhou. Fechou.
Abriu novamente.
- Não quer ficar para jantar e ver a novela? Um filme talvez?
O elevador apitou e ela assistiu a mais uma tela quente sozinha, sem entender porque ele tinha ido.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

os males do sonhar

Gritou, como se o grito expulsasse o medo do corpo. Procurou-o na cama e não o encontrou. Entre o estado de inconsciência causado pelo sono e o acordar definitivo rememorou o que se passara. Eram personagens de uma história já contada em muitas versões. História de final conhecido sobre o fim. Passara-se certo tempo até que pudesse ver além de suas lembranças do que acontecera. Eram felizes, só sabia disso. Eram bonitos como uma foto dessas onde o olhar brilha estrategicamente posicionado sob um raio de sol. Nunca vira sorriso igual. Eram parte de uma coisa única a ser dividida tragicamente numas das tardes perfeitas que passavam ignorando a presença do mundo. E nesse ignorar foram percebidos e repelidos. Não alegravam a ninguém, somente a si próprios e isso não era bom. Existiria palavra para falar de um ódio maior que o ódio? - perguntava ela à criatura em sua cabeça. Não importa, é por sentimento assim que você está aqui.
E ela se viu novamente, gritando. Em camera lenta acordou, olhando-o enquanto voltava ao quarto. Ele estava ali. Estaria sempre. Era só não sonhar novamente e tudo estaria em seu devido lugar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

cotidianos (desconectividades #3)

O chacoalhar do ônibus a enjoava. Por que, deus, tinha que tremer tanto? Por que as pessoas mascam chiclete de tutti-frutti e deixam o cheiro dominar o ambiente? Ao menos não era o cheiro da lasanha queimada no forno, pensou, lembrando do incidente da noite anterior. Tinha uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. E comeu. E despejou na pobre pia, sua amiga de longa data que não a agüentava mais debruçada sobre a torneira pedindo aos céus que lhe mandassem um organismo menos lesado pelos malefícios do tempo.
Que mal lhe pergunte, você está passando bem, perguntou a moça da entrada quando ela chegou com óculos escuros, mesmo sabendo que não estava claro para tanto. Eu? Estou ótima. E voltou-se para a entrada do banheiro, enfrentando o fundo da privada como se fosse um embate para manter sua dignidade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

de amores improváveis

Colocou-se novamente sob seu controle, menos pálida e fraca agora. O medo dissipara-se em dias que preferia não contar e que passaram rápido como sonho. Passavam ainda, corrigiu o pensamento. E passavam muito bem. Quase sem que percebessem que o mundo se fechara para que nada lhes afetasse. Agora conseguia olhá-lo por mais tempo sem temer revelar-lhe segredos. Foram felizes desde aquele dia no passado e assim ainda eram. Dali até o tempo perder-se de vista.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

delírios (desconectividades #2)

Foi ao fundo pensando subir por toda a imensidão quando ocorreu que não eram os melhores degraus a descer quando se olha para cima. Pôs-se no caminho a mirar a janela enquanto o mundo andava de costas. Ou seria ela? Que seja - pensou fazendo bolhas de sabão imaginárias - se eu virar, o mundo vira também, então estaremos ambos andando pelo lado contrário. Saiu a correr de um vento que insistia em ventar em suas bolhas e levá-las para o alto. Existe uma palavra para quando queremos lembrar alguém que já foi e que não conhecemos? E chegando onde não lembrava porque estava indo, decidiu que voltar seria melhor que sentar e cantar enquanto a lua deixava o sol de lado para brilhar num cantinho escuro do mundo claro que ela viu quando acordou. Existe uma palavra para aquelas pessoas que deixamos para trás porque não nos serviam mais? Chegou onde desceu para subir e, entediada, voou com um balão para fora da janela levando com ele a casa e as roupas dela. Olhando-o enquanto vinha em sua direção, pensou que era a palavra que procurara pelo vento e como não chegara a tanto, retornou. Existe uma palavra para saber que escolhas foram certas ou erradas? Existe querida, chama vida.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

foi que não foi e desistiu (desconectividades #1)

Viu-se num mundo paralelo desenhando sobre a poeira do vidro da janela da sala o destino que traçaria para os anos que já se foram. Para os que viriam, desenharia na espuma de detergente na pia da cozinha. Dali sairia para uma eternidade fadada a um fim de morte sem que lhe explicassem a causa. Morreria de amor era sabido pela cigana que lhe pegou a mão naquela tarde sem que percebesse. De amor morreriam todos aqueles que num mundo paralelo se quedassem a entender este em que vivemos, disse aquela que com roupas coloridas viu passar a moça a qual leria o futuro mentalmente. De medo de um fim da tarde desamado previsto previamente quedou-se a procurar abrigo dentro das gotas que caíam do céu anunciando a nova chuva de verãooutonoinvernal que se perpetuava na cidade sem clima definido para a qual migrara no futuro do pretérito. Dentro do sereno viu numa escala calendoscópica o mundo que paralelamente criara e pôs-se novamente em uma dimensão colorida à multicores que iluminava a sala já cheia de luz que insistiam em se acender ao amanhecer. Amanheceu-se então. Anoiteceu-se logo em seguida, assustada com a previsão de futuro sem futuro na qual insistiria em existir dia e noite, noite e dia, num espaço sem fim de uma linha de poeira sobre a janela.

quinta-feira, 25 de março de 2010

desconexos

Perdia-se entre pernas e braços e beijos. Amava aquele corpo como se fosse seu, em verdade, até mais que o seu próprio. A palidez era tanta que o invejava. Sem contar a magreza perfeita. Amavam-se além do natural. Queriam ter o corpo um do outro para si. Transcendiam a busca pelo prazer, como se quisessem fazer parte do outro. Amavam-se, fato, mas desejavam-se mais que tudo.
A ela, bastava morrer enquanto o tivesse. E que morressem, se assim lhe permitissem a vida. A ele, que pudessem passar a eternidade emaranhados como se não houvesse nada além da cama e de seus corpos. E não havia. Era apenas isso que lhes importava verdadeiramente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Das perdas e dos danos


Perdia muitas coisas. Desde os grampos para prender o cabelo, que desapareciam na média de dois por dia, até os textos que escrevia (que os perdia intencionalmente quando necessário). Também perdia os amores como os grampos. Desamava um por dia. E amava novamente quando lhe convinha. Mas normalmente não convinha, então desamava e deixava-se sentir bem por isso.
Era cruel, sabia, mas perdia por sobrevivência. Perdia porque não cabiam em seu pequenino coração. Nesse, o coração, só cabia o necessário e o necessário não lhe bastava. Foi quando deixou de se amar para liberar espaço aos outros. Passou a amar mais para fora que para dentro. E isso não deixou de ser cruel...

segunda-feira, 1 de março de 2010

I'm human and I need to be loved


Estava a tanto tempo engasgada com as palavras que, quando conseguiu dizê-las, adoeceu. Não sabia amar, nunca se dera ao trabalho. E quando disse que amava, em resposta a declaração matinal do namorado, soube que perdera todas as forças. Dera a ele tudo o que tinha para si. Não se amava mais. Não tinha amor suficiente para os dois. Odiou-se logo que o viu sair pela porta de manhã, levando consigo o que fora dela por tanto tempo. Deixou-a na cama, relegada a um corpo que também não lhe pertencia mais.
Queria o amor de volta, então tentou negar. Mas já não estava ali. E ela conhecia o poder das palavras bem o suficiente para saber que destroçara seu coração ao amar outrem.
Antes fosse o corpo, pensou ela. Mas sabia que nunca tivera domínio sobre o seu próprio corpo e que dar-lhe a alguém em nada lhe afetava. Emudeceu ao longo do dia.
Maquinava em sua cabeça formas de roubar um amor para si. Pegar outro coração que pudesse suprir a necessidade de afeto. Não tinha. O namorado tinha apego o bastante para os dois e mais cinco gerações, mas não lhe bastava.
Então o que fazer? Nada lhe dava vontade. Perdeu o apetite. Perdeu o sorriso. Voltou para casa, abraçou o ursinho que lhe acompanhava desde a infância com força o suficiente para mantê-la sufocada. E assim o fez até o momento que conseguiu destroçar o bicho, tirando dele o amor que pensava ter depositado em tantas noites de abraços sonolentos. Percebendo que a espuma não tinha vida, resolveu arrancar o próprio coração na busca cega por algo que pulsasse e lhe desse a sensação de estar viva. Adormeceu sem perceber que perdera também a capacidade de receber o amor alheio.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

inversão

Saiu do papel de superioridade que exibia desde sempre para cair bem fundo, lá embaixo de onde estava acostumada a ficar. Era triste. Triste não, melancólico e insólito.
Não sabia se encaixar nesse papel de verdade. Fingira por vezes o sofrimento daqueles que morrem de amor, mas não sabia o que era isso desde o distante dia em que colocou o coração numa redoma de gelo. E agora sentia que lá estava, no fundo, sem poder contar a ninguém. Sem poder chorar – porque não sabia, não por falta de vontade.
Nesse lugar ele a deixou. E foi embora, sentindo-se superior em sobrepor-se aquela que o redimia a um mero adereço. Olhou de cima, sem expressão alguma e foi.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

o fim imaginário

Sentia como se todos os ossos do corpo doessem em resultado de algo que lhe machucara e lhe deixara marcas sem fim. Sentia falta da pressão sobre seu corpo que aquele outro corpo exercia, não apenas quando se quedava sobre ela, mas também quando a olhava e se concentrava em cada parte de seu corpo – pintas, pelos, pele: tudo era motivo para uma observação profunda e sem fim. Não entendia a sensação que isso lhe proporcionava, mas gostava, até mesmo quando sentia medo de encontrar um olhar vidrado no seu, observando sua alma em busca da certeza de todos seus pensamentos. Mas naquela tarde sentira dor, sabendo que nada estava no lugar. O olhar atento em seu corpo passara para despercebido e focado no ar. Sabia que o perdera. Para sempre. Seu corpo, sua veneração. E sentia dores e náuseas a perceber que nada naquela noite lhe daria o conforto de um corpo para dormir.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

históricos


Seis anos e tantos meses que acreditava já se somarem sete anos. Quem sabe até oito. Não sabia. Lembrava do momento exato de se conhecerem, mas não lembrava o ano, a data. Sabia que o detestara no início. E durante também. Mas muito mais no fim, isso é fato.
Sabiam-se tudo de suas vidas. Tudo e nada, ela ponderava.
Das mentiras que escondera até a verdade revelada, considerava aquele rapaz uma incógnita essencial na sua vida.
Fazia parte, e isso ninguém podia negar. Era parte dela assim como ela era dele. Afetavam-se mutuamente até de maneira inconsciente.
Buscava a sua aprovação para tudo, mesmo que fosse apenas em seu pensamento. Se ele concordasse, ela fazia.
Temia que isso fosse um ciclo sem fim. Mas temia que se acabasse para sempre. Aliás, o para sempre que eles se prometeram tantas vezes perdurava. Ainda se amavam. Não como haviam prometido, mas amavam e por isso ninguém lhes culpava.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ódios, textos e coisas que eu queria te dizer e não sei

Estava no meio de um texto quando resolveu descontar seu ódio acumulado em alguém que não o entenderia e nem o receberia como se deve.
Inconformada com o ódio que não fora devolvido em dobro, mas que havia sido reduzido a pó e chegado para devolução na forma de silêncio, ela voltou ao texto (já que o trabalho lhe contentava por também odiá-la).
Deparou-se com a frase “Esse diálogo entre as partes...”. Quase riu com a ironia. De que diálogo falava se sequer sabia travar um como adulto racional?
Agiu como agia aos seus cinco anos de idade - satirizando as pessoas com suas palavras prematuramente cortantes e ácidas. Criatura infeliz que não sabia fazer nada além de vomitar emoções mal construídas no seu estômago.
Direcionou a atenção para o parágrafo seguinte, quem sabe o texto lhe ensinasse a travar o tal “diálogo entre as partes”. Ele fugia as suas intenções. E ela teve certeza que aquele texto lhe odiava tanto quanto ela odiava o fato de ter que o fazer para outro que não o amaria como deveria ser amado. Os textos, seus filhos, devolviam o ódio que ela dava ao mundo sem saber por que.
Antes pudesse se expressar de maneira clara e concisa por meio deles, como lhe fora ensinado nos cursos de redação ao longo de toda uma vida.

Sleeping with ghosts


Acordou no meio da noite, assustada como de costume. Com um sobressalto percebeu que ele não estava mais lá. Chacoalhou-se entre os lençóis tentando achar algum vestígio, mas ele se fora.
Das muitas horas que faltavam para que o dia chegasse, dormiu apenas duas. E dividiu o sono entre pesadelos e calores insuportáveis que a lembravam o quanto detestava ser filha de uma terra tropical.
Quando desistiu de dormir, se deu o privilégio de esperar o dia amanhecer entre pensamentos soltos e uma xícara de café. De tanto pensar, percebeu que ele não tinha ido embora. Na verdade, nunca estivera ali. Era fruto da sua gigantesca imaginação.
Nunca a amara, nem nunca tinha sido amado por ela. Jamais dividiram juntos aquelas xícara de café nem o cinzeiro. Jamais tinham sorrido ao se olharem durante o sono.
Ficou feliz por isso. A não existência lhe dava paz. Não amava e, sendo assim, não tinha com o que se preocupar ao acordar no meio da noite com a cama vazia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

alice no espelho.

“Minha maior frustração é nunca ter tido uma bicicleta”, disse o moço de camisa regata preta sentado na ergométrica ao seu lado.
Saiu do transe e teve que reparar no rapaz que havia chegado há cerca de dez minutos. Nele e em todas as outras quinze pessoas que se dispunham em um semi-círculo diante do enorme espelho que adornava o espaço.
Odiava aquele espelho. A luz lhe dava dores de cabeça, os reflexos dos homens musculosos olhando para si próprios a enojava. Mas estava lá, diante daquele vidro brilhante. Propôs-se a correr no ritmo da música estridente que pulsava das caixas de som pregadas estrategicamente pelos cantos.
Pensou no que o rapaz disse e lembrou-se de como gostava de sua bicicleta inseparável de muitos anos antes. Corria para ela toda vez que queria fugir do mundo. E fugia todos os dias. Pequenina, rumo ao sol. Pedalando até não poder mais. Gostava das lágrimas de ódio que se misturavam ao seu cabelo emaranhado pelo vento. Gostava do vento, do silêncio que ele produzia enquanto ela ignorava as buzinas dos caminhoneiros na estrada.
Continuou correndo. O instrutor alternava os berros entre palavras de motivação e de desprezo por aquelas pessoas que pedalavam frustradas sem sair do lugar.
Seu rosto ficava insuportavelmente vermelho e o pé doía como já doera nos anos passados. Mas não sentia o vento. Era só o ar seco vindo do ar condicionado que lhe roubava o pouco da umidade na garganta e lhe obrigava a pedir água para o rapaz ao seu lado. Agradeceu a generosidade das pessoas ao notar um momento de desespero.
Abaixou a cabeça. Não podia mais olhar para aquele rosto querendo chorar e jogar seu ódio pelo mundo sendo frustrado a cada pedalada diante de um espelho sem vida. Corria desesperadamente, até achar que suas pernas sairiam do lugar. Dispensou-se em raivas por estar ali e por saber que nenhum dos quinze entenderia sua necessidade de correr para fora.
Desfez-se de seu suor e amargou a tristeza de não poder mais voltar aos anos felizes na estradinha do pôr do sol.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Where you’ll find me

Aquietaram-se no sofá diante da janela para olhar a chuva cair. Na delicada embriaguez do corpo esperavam as gotas cair lentas o suficiente para pegá-las.
O dia estava tão vagaroso que se podiam se mover no tempo, sem que nada os percebesse. Eram felizes, tanto e tanto que o medo lhes dominava silenciosamente. Não falavam sobre ele, mas sabiam que o sentimento era mútuo. Ela cantarolava músicas de romance e ele divagava sobre as possíveis datas para terem se conhecido e sobre as chances de evitar aquele romance tempestuoso.
Diante dos muitos dias que se passaram com a chuva, souberam que não poderiam ser – nem dessa forma, nem de outra. Eram aquilo. Sem muita idéia do que seriam dali em diante. Nada além de ficar olhando a chuva cair pela janela.
...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

she's a little lost girl

Estava sentada na mureta. Balançava as pernas no ar. Ela era pequena, não alcançava o chão quando se sentava ali. Eu a olhava pelo reflexo do vidro que dividia o jardim, com mais indiscrição do que gostaria. Ela sabia que eu a via, mas disfarçava, sorria para os amigos que estavam perto e acenava para os que passavam.
Tinha um sorriso tão fingido que me irritava. Era por isso que a olhava. Ela sorria e todos aceitavam, menos eu. Sabia que sorria de mentira. Sabia pelo brilho do seu olhar.
Ela não olhava nos olhos, mirava as sobrancelhas dos interlocutores. Era um truque, eu conseguia ver isso nitidamente através do reflexo. Eles não. Sorriam com ela.
Vez ou outra, ela coloca a mão sobre a testa, para proteger os olhos de algum raio de sol inconveniente. Gestos pensados. Todos. O estralar dos dedos, o chacoalhar dos pés.
A raiva me consumia tarde após tarde, enquanto eu acendia um cigarro após os outros e cerrava os olhos para olhar aquela menina com jeito de menina que nunca cresceria.
Eu não me arriscaria. Ela, quem dirá, eu era mais um na multidão de acenos.
Mas numa tarde indiscreta me arrisquei mais que o sol e cruzei o olhar pelo espelho. Corou tão discretamente que só eu percebi. Maldita. Apaguei o terceiro cigarro e subi pelas escadas, evitando o reflexo na porta do elevador. Sabia que ela coraria novamente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

vodu

Disse-lhe que tomasse pílulas de 500 miligramas de remédio duas vezes ao dia. Ela não conhecia dosagens, mas imaginava que isso seria o suficiente para esquecer a dor por alguns momentos.
Há dias tinha a impressão que lhe enfiavam agulhas na cabeça, por vezes pensou que eram bigornas caindo do teto. Sob a luz ameaçadora do consultório, disse que tudo bem.
Observava as pessoas a sua volta enquanto aguardava sua vez de receber a divina dose que acabaria com os males daquela manhã. Era mais forte que as 500 miligramas que tomaria nos próximos dias. Esperava ansiosamente sua vez enquanto observava uma mulher branca, pálida, sofrer com espasmos involuntários e calafrios ao seu lado e mais adiante um rapaz que acompanhava desde a recepção. Seu rosto se anuviava cada vez que a dose descia com mais força e entrava em seu braço. O rapaz fechava os olhos, como se de algo adiantasse.
- Senhora, sua vez – chamou o enfermeiro.
Ela fechou os olhos, mas tinha uma atração inexplicável por agulhas entrando em sua veia. Antes fossem drogas, pensava em segredo.
- Vai ser rápido, você vai ver.
Que seja. Em menos de um minuto sentiu o corpo amortecer e agradeceu aos homens pela capacidade divina de criar remédios sintéticos.
O marido da mulher pálida enfiava a cabeça pela porta a cada minuto e o olhar preocupado lhe deu um tanto de inveja.
Saiu. Olhou o sol. E conseguiu olhar sem dor pela primeira vez em cinco dias.
- Malditos fazedores de vodu! Deviam ao menos me poupar o sono.
Foi para casa cambaleante. Desejando nunca mais voltar naquele lugar cheirando a álcool e lembrava tempos remotos que sua memória queria esquecer.
Eu devia aprender a preparar as doses eu mesma, assim aliviaria a dor sem abandonar o conforto do sofá.
A ideia do vodu tomava sua cabeça enquanto a dor ia sendo deixada de lado. Mas por que me quereriam tanto sofrimento?
Ah sim, por conta do amor sofrido. Mas só por isso?
Malditos fazedores de vodu...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O não-filho

Acordou num sobressalto. Olhou os seios descobertos para conferir que ainda lhe pertenciam.
Aquela imagem do sonho lhe causava arrepios. Como uma criatura pequena poderia se alimentar de seu leite? Como um ser conseguiria sobreviver as custas de um líquido envenenado pela vida?
Mesmo sendo um sonho, sabia que não poderia cuidar da criança. Ela não lhe pertencia. Era sua, isso sabia. Mas não queria tê-la.
Sofreu por saber que não poderia ser mãe. A natureza não a tinha agraciado com os dons da maternidade. Os homens sabiam disso. Era como a lenda das Amazonas. Ela era a típica guerreira, porém, de ventre seco.
Depois de um tempo os homens fugiam. O relacionamento não evoluía. Seria para sempre a guerreira que os homens temem por não saberem subjugar.
E nesse sonho tinha certeza disso. O filho, que tentava alimentar com muito esforço, seria arrancado, dado a outra mulher com mais amor de alma.
Não tinha um pai. O sonho não mostrara. Se ele existisse, não seria tão pesaroso. Seria apenas o fim previsível de muitas mulheres.
Era por isso que ela não podia tê-los, os filhos. Imaginava-os como fins. Não eram começo de nada. Era fim da vida, da beleza, do domínio de seu próprio corpo. Seus seios não seriam seus, mas sim serviriam de alimento.
Seu ventre seria revolvido por nove meses, nos quais seria infeliz. E depois, nem o filho seria seu. Assim como não fora de sua mãe.
Deixou o sonho ruim de lado. Garantiu que ainda tinha seu corpo intacto. Durante aquele dia, evitou olhar as barrigas das grávidas que circulavam e se multiplicavam a sua volta.

desapaixonar-se

Logo depois de se aventurar sob uma chuva torrencial, percebeu que não queria ser.
Despida de todo o resto de beleza que lhe restara, se olhava no reflexo das vitrines e se odiava por ter o cabelo desgrenhado, a pele pálida e o corpo fora do padrão.
Não lhe importava quantos olhares arrastasse enquanto caminhava torpe pelas poças de água que aumentavam a casa minuto: ela estava desapaixonada.
E desse mal sofria a cada mudança no ciclo lunar. Eram os dias amarelos e quentes que lhe tiravam a paixão, lhe davam um tom estranho a cor dos olhos e dos cabelos e estragavam a combinação de suas roupas.
Estava particularmente irritada naquela tarde. Seu humor de noite bem dormida logo fora destruído pela irritação visível com o guarda-chuva quebrado.
Tentou, riu, mas logo jogou fora aquela porcaria azul que de nada protegia. Mas enquanto caminhava sentiu falta da cobertura que há pouco escondia levemente seu rosto. Agora estava ali, feito uma criatura de gesso se desfazendo. Fugia dos olhares e tentou se refugiar dentro de sua fértil imaginação.
Quando o ônibus jogou água na única parte seca de sua roupa, voltou a vida real.
Chegou em casa e amargou suas escolhas.
Por que não casara cedo? Por que deixara a família longe e se refugiara numa cidade hostil? Por que insistia nessa vida sombria?
Era tão difícil entrar no padrão.
No dia seguinte, quando logo cedo percebeu que não era agraciada pelo bom gosto no vestuário e quem dirá pelas qualidades estéticas, pensou em desistir.
E para onde iria? O mundo bem melhor que a mãe cantou em músicas de ninar na infância não existia ainda.
Tudo o que restava era esse lugarejo quente e provinciano, que alternava entre chuvas sem fim e dores de alma.
Pacientemente, esperaria a próxima virada da lua, quando então o que queria dentro de algum olhar apaixonado refletido no espelho.
Esperaria a próxima chuva lavar a alma e só então ousaria olhar para o alto e buscar algo para apaixonar-se.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

When I hit the bottle


E mais uma vez ela foi para a casa arrastada.
- Acho que não me lembro de tudo o que aconteceu, dizia a moça em meio a confusão de sua amnésia.
- Eu cuidei de você, não tem problema, respondeu o rapaz que havia acordado ao seu lado naquela manhã quente feito o inferno.
Cada uma de suas células gritava e pedia desesperadamente para não existir em meio aquela enxurrada etílica. Ela se arrependeu. Disse que não aconteceria de novo.
Aconteceria. Ela e sua falta de limite misturada a vontade de se esquecer dentro de um copo.
“A amnésia é uma invenção social”. Sim, e é também um bom recurso ao que queremos esquecer.
Desde a noite anterior, quando quis outro e nesse outro nada encontrou, sentia que precisava esquecer algumas partes da vida. Mas de nada adiantou. Lembrava desse, do outro, dos copos, da vontade de deixar o estômago na privada.
Levantava de hora em hora para se forçar a melhorar. Não melhorou até o momento que se despediu da última gota da noite passada.
Acordou no dia seguinte com espírito de novo ano. Planejou todos os próximos e ficou feliz por ainda ter tempo de remediar alguns erros.
Mesmo assim, seu inconsciente tinha certeza que em menos de quarenta horas se despiria dessa capa de esperança e se perderia mais um pouco.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Só mais uma coisa


Cansei de problema pequeno
Cansei das bolhas sociais
Das pessoas de problemas pequenos
Daquelas que também tem raciocínios pequenos
Cansei dessa mesmice
Dessa reclamação burra de quem não tem do que falar
Cansei. Hoje eu não quero mais.
E porque cansei vou-me embora
Para onde as estrelas explodem
Virar algo a mais que alguém cansado, planejado, com aparência de pré-montado
--
E dessa aparência pré-moldada, montada, dourada, eu me desfaço.
E dos problemas... tão pequenos... que problemas?

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

74 dias com ele (ou Mentiras Convenientes)

Custaram 74 dias para que ela se decidisse. Optou pelo fim.
Os pesadelos a consumiram nesse tempo. Não podia mais dormir. Nem sozinha, nem com ele ao lado. Sentia dores, náuseas, súbitas vontades de ficar em silêncio.
Era culpa, diziam os mais puritanos. Ela sabia que era culpa, mas não a culpa pelo erro inicial, aquele que cometera numa manhã de sábado há 74 dias. Era culpa por enganar a si própria.
Nesse tempo, perdera o medo de olhar as pessoas nos olhos. Aprendera a mentir para elas. Fingia amar e fingia não amar, quando era necessário.
Mas conhecia seu coração. E sabia que dentro dele tudo corria o risco de morrer. Um dia, pensou que os habitantes de seu coração se suicidavam. Afinal, como poderiam viver num lugar tão sombrio?
Diante do medo de mais uma morte, optou pelo fim.
Ele argumentou. Ela mentiu mais. Desligou o telefone e quis ser engolida pelo silêncio.
Achou que dormiria nessa noite. Teve mais pesadelos. Mas amanheceu e ela agradeceu pela claridade que embalaria alguns minutos de sono. Era somente de dia que podia dormir. Tinha medo do escuro.
Também pensou que o peso da culpa sumiria. E ao longo do dia sentiu todo o mundo perder a graça. Mentiu para si mesma de novo.
Quis apagar os 74 dias. Não quis também. Olhou as fotos bonitas do fim-de-semana anterior e se odiou por mentir.
Pediu em segredo aos deuses que lhe concedessem uma noite de sono calmo, num lugar onde ninguém poderia lhe condenar por nada - nem mesmo ela própria. Sem acreditar em deuses ou anjos e muito menos na verdades vertidas para ele ao telefone, sentiu-se adormecendo.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010