quinta-feira, 25 de março de 2010

desconexos

Perdia-se entre pernas e braços e beijos. Amava aquele corpo como se fosse seu, em verdade, até mais que o seu próprio. A palidez era tanta que o invejava. Sem contar a magreza perfeita. Amavam-se além do natural. Queriam ter o corpo um do outro para si. Transcendiam a busca pelo prazer, como se quisessem fazer parte do outro. Amavam-se, fato, mas desejavam-se mais que tudo.
A ela, bastava morrer enquanto o tivesse. E que morressem, se assim lhe permitissem a vida. A ele, que pudessem passar a eternidade emaranhados como se não houvesse nada além da cama e de seus corpos. E não havia. Era apenas isso que lhes importava verdadeiramente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Das perdas e dos danos


Perdia muitas coisas. Desde os grampos para prender o cabelo, que desapareciam na média de dois por dia, até os textos que escrevia (que os perdia intencionalmente quando necessário). Também perdia os amores como os grampos. Desamava um por dia. E amava novamente quando lhe convinha. Mas normalmente não convinha, então desamava e deixava-se sentir bem por isso.
Era cruel, sabia, mas perdia por sobrevivência. Perdia porque não cabiam em seu pequenino coração. Nesse, o coração, só cabia o necessário e o necessário não lhe bastava. Foi quando deixou de se amar para liberar espaço aos outros. Passou a amar mais para fora que para dentro. E isso não deixou de ser cruel...

segunda-feira, 1 de março de 2010

I'm human and I need to be loved


Estava a tanto tempo engasgada com as palavras que, quando conseguiu dizê-las, adoeceu. Não sabia amar, nunca se dera ao trabalho. E quando disse que amava, em resposta a declaração matinal do namorado, soube que perdera todas as forças. Dera a ele tudo o que tinha para si. Não se amava mais. Não tinha amor suficiente para os dois. Odiou-se logo que o viu sair pela porta de manhã, levando consigo o que fora dela por tanto tempo. Deixou-a na cama, relegada a um corpo que também não lhe pertencia mais.
Queria o amor de volta, então tentou negar. Mas já não estava ali. E ela conhecia o poder das palavras bem o suficiente para saber que destroçara seu coração ao amar outrem.
Antes fosse o corpo, pensou ela. Mas sabia que nunca tivera domínio sobre o seu próprio corpo e que dar-lhe a alguém em nada lhe afetava. Emudeceu ao longo do dia.
Maquinava em sua cabeça formas de roubar um amor para si. Pegar outro coração que pudesse suprir a necessidade de afeto. Não tinha. O namorado tinha apego o bastante para os dois e mais cinco gerações, mas não lhe bastava.
Então o que fazer? Nada lhe dava vontade. Perdeu o apetite. Perdeu o sorriso. Voltou para casa, abraçou o ursinho que lhe acompanhava desde a infância com força o suficiente para mantê-la sufocada. E assim o fez até o momento que conseguiu destroçar o bicho, tirando dele o amor que pensava ter depositado em tantas noites de abraços sonolentos. Percebendo que a espuma não tinha vida, resolveu arrancar o próprio coração na busca cega por algo que pulsasse e lhe desse a sensação de estar viva. Adormeceu sem perceber que perdera também a capacidade de receber o amor alheio.