(laboratório para aprimorar a escrita e minimizar os muitos pensamentos acumulados)
quarta-feira, 30 de junho de 2010
Eu estava com medo de não te encontrar
A perda era inevitável. Sabia disso desde o primeiro olhar. Era um amor impossível que ela tornara possível assim como fizera com tudo o que muito quis em sua vida. Ainda assim, sabia que o perderia um dia. Que fossem anos luz depois, em suas velhices. Que fosse ainda na juventude, perdendo para outrem. Essa idéia dolorida não era das mais agradáveis, então, desanuviava seu pensamento e olhava os olhos verdes, por vezes escondidos sob as pálpebras preguiçosas daquele que os guardava. E se esquecia de sentir medo. Pois este, o medo, apenas trocara de lugar. Deixara de ser o medo dos culpados - que mantivera em tempos passados - para o medo dos que não suportam perder.
terça-feira, 29 de junho de 2010
senhora do destino (desconectividades # 5)
As coisas não duram, disse ela com a mesma naturalidade com que pedia o chá mate na lanchonete todos os dias. Tentando compreendê-la, o homem pôs-se a ligar passado com presente com perguntas sem resposta com respostas para quaisquer perguntas.
Nada alterou seu pensamento. Ela continuava a pensar na não durabilidade das coisas, ainda sem saber por que insistia em ter tudo a sua volta para sempre, forçando-se a relações estagnadas e com medo de perder aquilo que não fazia questão de manter presente enquanto se esforçava para não destruir o que realmente queria por perto.
Se pudesse descobrir o fim, seria mais simples e tudo planejado. Não, querida, essa é a parte legal da vida, a gente não sabe quando tudo vai acabar. Mas ela sabia... Ela sempre sabia.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Lost in a cruel paradise
Como não soubesse para onde ir, ficou onde estava, estagnada em pensamentos sobre o que poderia ser feito e não soube.
Caiu num buraco para pensar sobre quem era, mas descobriu-se igual a tudo e irrelevante ao ponto de não fazer diferença o acordar. Não, não era depressão. Não lhe entristecia o viver. Cansava-lhe sim a vida enfadonha, com um ar de repetição constante e desnecessária aos olhos do mundo, a seus olhos. Desnecessária como todos que nesse mundo vivem sem diferenciar-se de um poste. Desnecessária como um operário numa linha de produção, substituível por qualquer formiga que valesse o salário. E vivia. Perdida num mundo que tinha poucas coisas a seu alcance, com a etiqueta detestável da mediocridade colada em sua testa. Tudo médio, nada palpável, tudo transferível e com pessoas descartáveis. Vivia, porque não sabia morrer sem nada ser.
quarta-feira, 2 de junho de 2010
Medos
Ela acordou sobressaltada pelo seu sonho. Havia conseguido o que queria, e se assustou ao ver escapar pela porta de manhã cedo.
Correu, não deu tempo. Ele tinha ido. E levado junto tudo o que lhe interessava: a mágica de esquecer quem era ela.
Agora ela estava sentada, vestindo a camiseta do pijama e esperando que o sofá afundasse e ela pudesse ter novamente seus olhos embaçados por algo melhor do que esse mundo em que ela vivia.
Correu, não deu tempo. Ele tinha ido. E levado junto tudo o que lhe interessava: a mágica de esquecer quem era ela.
Agora ela estava sentada, vestindo a camiseta do pijama e esperando que o sofá afundasse e ela pudesse ter novamente seus olhos embaçados por algo melhor do que esse mundo em que ela vivia.
Caçadas (desconectividades #4)
Voava com a fumaça que subia e rodopiava pelo ar como quem quer fugir pela janela e virar nuvem no céu. Antes fosse abóbada celeste. Perguntou-se se existe palavra para quando a gente esquece o que devia ter lembrado. Memorizou-se e saiu destemida a caçar borboletas rebeldes de vento. Rebeldia sem causa de quando a gente percebe que já é grande demais para a jaula que nos aprisionaram com tanto amor. Existe palavra para quando fugimos do tudo o que nos cerca? Existe, linda, chama medo.
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