Soube que estava em casa quando a amiga, aquela eterna, de segredos incontáveis, virou na esquina, à esquerda, Consolação com Maria Antônia, fazendo com que ela seguisse sozinha, por mais seis quadras. O trajeto era o mesmo de anos. Conhecia putas, mendigos, garçons. Sabia identificar trombadinhas viciados em cola e diferenciar de pobres coitados de calçada. E até se colocava do lado mais seguro, para tentar se proteger do nada. Era sua casa. Poderia andar ali mesmo que estivesse fora de si – e chegaria bem.
O desenho geométrico do calçamento quase em nada se entendia com aquela cidade desordenada, de prédios que a faziam se sentir segura, mesmo que em perigo. Estava em casa, sabia. Mesmo com o cheiro de podre que pairava no ar aos domingos, o dia em que o serviço municipal de lavagem de ruas não funcionava e deixava o ambiente mais austero, quase que afastando as pessoas. A ela não. Era sua casa. Mesmo que tivesse que apertar um pouco mais a alça da bolsa contra o corpo, conseguiria chegar ao número 43 todos os dias em segurança.
A cerveja, nas mesas daquela rua imunda, tinha um gosto conhecido. O mesmo que a faria sentir leves pontadas na cabeça ao chegar em casa, sempre de estômago vazio, um pouco pela falta de dinheiro, mas mais por preferir gastar tudo com bebida e não com batatas, na companhia da amiga. Sempre aquela boa amiga, confidente de pensamentos impublicáveis e risadas tristes de nostalgia da vida que deixavam de viver enquanto vivam as tentativas de felicidade. Sim, eram felizes de certo modo, mesmo que ainda não fossem livres.
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