A comida tem gosto igual. Não importa o que seja. As falas. As notícias. Os sorrisos. Iguais. Ainda. O grito é o mesmo. Entalado na garganta, contido, trocado diariamente por expressões educadas e cumprimentos cordiais. Não se grita mais. A sensação de repetição dá espaço ao desespero de quem não quer saber nem o próprio nome, nem a própria história, nem os pratos preferidos. O novo não chega. Quando vem é diluído em rotina, igualando-se ao todo. O nada não existe mais. Não se pode não ser. Desde o bom dia o dia é igual. Não precisa mudar as horas. A essência é a mesma. Um nada fantasiado de existência.
(laboratório para aprimorar a escrita e minimizar os muitos pensamentos acumulados)
quarta-feira, 24 de novembro de 2010
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
out of control
Você está desperdiçando energia que poderia ser gasta em outras coisas, disse o mestre, enquanto empurrava seus pés para que se adequassem ao asana. Soou como uma daquelas profecias que insistimos em ver onde não existem, mas que tendemos a ignorar quando nos parecem verdadeiras demais.
Passara a semana tentando em vão controlar os fluxos respiratórios. Inspira. Expira. Era um mantra interno que a fazia temer o sufocamento em caso de distração. Sufocaria, cedo ou tarde. Não detinha o domínio de seu corpo, entretanto, queria provar para sua mente doentia que podia obrigar os cotovelos a dobrarem no exato momento da expiração.
O suor escorrendo pelo rosto. Incomodo como uma formiga descendo pelo ponto inacessível da coluna. Inspira. Expira. O suor cai. A situação não melhora. Os músculos ainda se contraem involuntariamente e fazem lembrar os espasmos estomacais que tivera tantas vezes diante da privada.
Limpe a sua mente. Concentre-se na respiração. Foda-se a respiração, ela pensa, enquanto tenta assimilar os comandos de contrair o abdômen e alcançar os calcanhares com a ponta dos dedos no exato momento em que se equilibra sobre um dos joelhos, que, já cansado, apela para a dor.
O suor passa. A respiração se acalma. A dor. Essa persiste. Sempre.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
das insônias
Chorava quando não conseguia distinguir sonho da realidade. Principalmente nos dias que os sonhos se resumiam a pesadelos confusos sobre perdas irreparáveis. Ora o fim do mundo, ora o fim do seu mundo, com ele indo embora para não se sabe onde sem qualquer razão definida. Acordou com dores no coração, apertado como se tivesse a beira de um ataque. Era medo. A iminência de perigo enrijecia os músculos, inclusive os da parede do estomago, o primeiro a sofrer com os lapsos de calafrios. Ouviu a voz. Ainda sonolenta. Não lhe trouxe muito alívio. Trouxe lágrimas, como que confirmando que o sonho ainda era irreal e que seria necessário manter os receios ao longo do dia. A espera infinita de uma previsão quase profética. Não fosse o horóscopo agraciando com notícias de futuros mais amenos, teria parado de respirar antes do almoço.
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