Ouvi seu relato numa noite em que tinha desistido de conhecer pessoas e ouvir histórias. Depois de um tempo viajando e escutando uma língua não materna dá vontade de ficar em silêncio por alguns minutos. Ainda sim, cumprimentei o hippie que veio me vender pulseirinhas e, alegre e simpática pelas taças de vinho mendocino, o convidei para sentar e beber comigo. A atração dele por Bukowski e as tendências anarquistas eram ótimas. Bem longe do roteiro comum que eu ouvira até então. Apresentou-me o punk num momento oportuno, num misto de encontro casual com marcado, concretizado pela certeza que têm aqueles que vivem na rua: vão encontrar os amigos em algum momento, seja numa esquina ou praça.
O punk era jovem, creio que da minha idade, com um sorriso de entorpecido. Chegou falando do andamento das vendas de suas pulseiras e logo foi se abrindo com a convidada brasileira. Ah mano, então você é brasileira, disse me deixando um tanto atônita. A pronúncia era boa. Foi então que seu relato começou. Ele e a esposa haviam passado pouco mais de seis meses em território tupiniquim, carregando a tiracolo o muleque, seu filho de dois anos. Nada de turismo. Eram punks, queriam saber o que tinha depois da tríplice fronteira e só. Chegaram a São Paulo e, puta merda! aquela cidade imensa, que assusta qualquer caboclo. Falava tanta gíria que era impossível não perceber que a rua tinha sido sua casa por mais tempo que o necessário, seja na Argentina ou no Brasil. E contava a mim e ao amigo, que não entendia lhufas de português, suas revelações.
- É tudo lindo lá véio, tudo grande. Todo mundo te dá comida e se você se esforçar um pouco não passa fome que nem aqui. Se num tem trabalho, tem gente boa dando a mão, roupa, calcinhas e leite pro meu piá.
Quando estava bem, alugava um quartinho nos fundos e curtia o marasmo de quem tinha vendido artesanatos suficientes para deitar de cabeça livre na cama.
- Quando acaba a bufunfa (asi que se habla, no?), é só mudar, fazer um corre, umas pulseiras. Até assistência social do governo te ajuda. E manooo, tem frutas de tudo quanto é cor mano, o barato é loco.
Passou de São Paulo até o Mato Grosso e voltou pela fronteira, não sem antes conhecer Trindade, Rio e uns lugares que já nem lembrava mais o nome. Só não usava crack.
- Crack te mata, é loco. Se você usa crack ninguém te dá dinheiro e você fica ali panguando na rua o dia todo. Os cara até fica babando. Num rola. Ah, e hospital é uma bosta também, daí nem vira passar mal né.
Foi embora depois sem eu me dar conta do tempo, do adiantado da hora, de pedir nome e telefone. Eu estava empolgada com a simples liberdade dele e só falei hasta luego e recebi um falo ae em troca.
Falo ae é tipo tchau, mas eu ia embora no dia seguinte. E de fato fui, pensando em que merda eu fazia da minha vida presa numa corrente que ninguém tinha colocado e pensando no quanto esse meu país é esquisito. Deu vontade de viver assim, por um segundo, por esse tal sentimento de liberdade que o punk sequer se importava. Mudei de idéia quando passei mal na madrugada seguinte e recorri a um taxi para me levar ao hospital. Taxi não é coisa de punk, intoxicação alimentar não é coisa de punk e eu vou amargar a vida porque nunca fui punk.
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