Horas depois de iniciar seus trabalhos, descobriu a impossibilidade de dar continuidade a uma vida em que as vinte e quatro horas do dia deveriam ser trinta, e nem deixar de dormir solucionaria o problema. Diante de tantos eventos não palpáveis, foi para casa. Antes de sair, declarara a um colega da mesa ao lado: “vou embora, estou frustrada demais para continuar aqui”.
O colega notara que as mãos já tremiam o suficiente para fazer balançar a lapiseira amarela com a qual ela insistia em rabiscar um dos inúmeros blocos de anotações que deixava pela mesa. Quando não, mordia a ponta metálica alternando com as balas Mentos, que mastigava ao menos vinte por dia. Revirando a bolsa em busca do bilhete de ônibus, deixou cair o estojo, também amarelo, e praguejou algo inaudível.
No ônibus, buscando respostas para sua frustração enquanto seguia rumo ao centro da cidade, adormeceu. O cobrador, que já a conhecia de vista, continuou assistindo a televisão do seu celular, modernidade a qual se dera ao luxo após ganhar o apetrecho de aniversário dos filhos. Sequer se deu ao trabalho de acordá-la quando uma idosa reclamou por ela estar sentada no banco reservado.
Não fosse também o imprevisto comum de ter que esperar um sujeito estranho sair do seu campo de visão, ela teria chegado em casa a tempo de esquematizar as tarefas noturnas programadas para aquela terça-feira. O inesperado foi o súbito sono com o qual não sabe conviver. Retrocedendo algumas horas na memória, não conseguiu lembrar nada que não fosse o cansaço que sentira durante aquele dia. Foi então que se rendeu, a contragosto, ao que julga ser tempo perdido.