terça-feira, 7 de abril de 2009

Suaves rotinas

A pedido de um professor, tive que descrever uma cena que tivesse acontecido recentemente.
Não achei o resultado de todo mal, mas o que me assusta é a frequencia com que me encontro nessa situação.
...Só espero que as patologias modernas passem...

Horas depois de iniciar seus trabalhos, descobriu a impossibilidade de dar continuidade a uma vida em que as vinte e quatro horas do dia deveriam ser trinta, e nem deixar de dormir solucionaria o problema. Diante de tantos eventos não palpáveis, foi para casa. Antes de sair, declarara a um colega da mesa ao lado: “vou embora, estou frustrada demais para continuar aqui”.

O colega notara que as mãos já tremiam o suficiente para fazer balançar a lapiseira amarela com a qual ela insistia em rabiscar um dos inúmeros blocos de anotações que deixava pela mesa. Quando não, mordia a ponta metálica alternando com as balas Mentos, que mastigava ao menos vinte por dia. Revirando a bolsa em busca do bilhete de ônibus, deixou cair o estojo, também amarelo, e praguejou algo inaudível.

No ônibus, buscando respostas para sua frustração enquanto seguia rumo ao centro da cidade, adormeceu. O cobrador, que já a conhecia de vista, continuou assistindo a televisão do seu celular, modernidade a qual se dera ao luxo após ganhar o apetrecho de aniversário dos filhos. Sequer se deu ao trabalho de acordá-la quando uma idosa reclamou por ela estar sentada no banco reservado.

Sempre tivera problemas com espaços reservados. Aquelas filas no banco, sempre maiores que as ‘normais’, já que por alguma razão a classe a qual se destinava insistia em freqüentar o local mais do que deveria. Ou então os lugares nos ônibus, bancos com encosto em cor diferenciada, quase sempre amarelos, onde um adesivo indicava, simbolicamente, que se destinavam a idosos, grávidas, mulheres com crianças no colo e deficientes físicos.

Como já dissera a uma amiga um dia, o “corpo estava treinado” e por isso acordava a tempo de descer do ônibus no lugar certo. Ela seguiu pelo trajeto de cinco minutos que separam o ponto da casa, e, não fosse pelo medo intrínseco que tinha daquela região desde que se mudara para lá, acharia um belo caminho, com uma ponte e uma bela vista da cidade que ela tanto admirava.

De um lado podia ver uma bandeira nacional, gigantesca e que julgava feia. Do outro, a avenida e a entrada de um túnel. Por mais feia que fosse a bandeira, gostava daquele lado, de manhã uma luz amarela brilhava ali, enquanto o outro ficava encoberto pela sombra cinza de todos aqueles prédios. Talvez por isso a região fosse fria. De qualquer maneira não andava pelo lado ensolarado. Era cômodo seguir pela outra calçada, já que sua casa ficava naquela linha reta.

Não fosse também o imprevisto comum de ter que esperar um sujeito estranho sair do seu campo de visão, ela teria chegado em casa a tempo de esquematizar as tarefas noturnas programadas para aquela terça-feira. O inesperado foi o súbito sono com o qual não sabe conviver. Retrocedendo algumas horas na memória, não conseguiu lembrar nada que não fosse o cansaço que sentira durante aquele dia. Foi então que se rendeu, a contragosto, ao que julga ser tempo perdido.

sábado, 21 de março de 2009

Última chamada perdida

Eu sempre acho que se o telefone chamasse sete vezes ao invés de seis eu teria mais sorte e você atenderia
Talvez por isso eu tente por cinquenta vezes até descobrir que não tem nada haver com sorte
Só tem haver com você não querer me atender

segunda-feira, 16 de março de 2009

Certezas dispensáveis

Não quero ter certeza que posso amar sem sentir paixão
Não quero ter certeza de que eu vou aprender a lidar com meu sentimentos e ficar calma
Nem quero saber se um dia estará certo tudo o que eu escolher.
Pouco me importa ter certeza nas escolhas.
Me importa menos ainda ter certeza da sua presença
Não quero saber que ela é sinal de que "eu aprendi que as coisas são assim" e que só por isso você está aqui
Não quero aprender essa lógica de pertencer sem desejar (ou desejar sem pertencer)
Nem quero sequer descobrir que a certeza das borboletas no estômago era uma gastrite trazida pela idade e que aos poucos ela desaparece para dar espaço ao "assistir tv abraçado, porque isso faz todo o sentido na vida"
Não quero amargar a eterna certeza dos sábios que conseguem distinguir seus sentimentos de suas razões e de seus desejos colocando tudo em caixas e gavetas separadas como se tudo não passasse de um jogo de montar.
E nem quero amargar a eterna certeza daqueles que sabem o dia de amanhã porque tudo é muito estável.

Insistência (ou o famoso murro em ponta de faca)

Não sei porque acreditei que iria ser diferente

Quando eu deixei as tuas mãos 
e fiquei em meu portão
tudo ficou tão cinza e frio
e o mundo em que eu vivia
já não foi como instantes atrás
já não fez mais sentido algum



(agradecendo por existir DoD, Morrissey e Placebo)

domingo, 8 de março de 2009

Envelhecendo #parte 2#

O maior problema é ver tudo indo embora
É quase como ver o para sempre sumindo e deixando de ser para sempre.
E não poder fazer nada, porque assim é a vida.
Feliz aniversário,
envelheço na cidade

sábado, 7 de março de 2009

Envelhecendo #parte1#

Ei garotinha.
Te disseram tantas coisas bobas, que você acreditou....
que bonito é ser magro, que amor verdadeiro é um só, que é ruim envelhecer.
Hoje eu escrevo para você, que amanhã envelhece.
Envelhecer não é ruim...
envelhecer é real e envelhecer com orgulho é um dom.
não pense que o final se aproxima,
apenas olhe para trás e veja as belas linhas que escreveu.
pense nas muitas que ainda irá escrever.
você é tão jovem e a vida é tão longa.
agora senta comigo na calçada e bebamos um cerveja, porque afinal de contas, nunca mais seresmo tão jovens quanto hoje.
e sim, quando mais o tempo passa, mas eu amo você.
feliz aniversário.

Postado por Sarah Germano no http://invasoesgermanicas.blogspot.com/


ps. obrigada, por tudo.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

Vazios

Sentindo um vazio estranho
Daqueles que acabaram de começar e não tem data para terminar, mesmo quando a data já está definida e próxima.
Vazio de quem perdeu algo sem perder nada
Vazio de quem se esqueceu de passar perfume antes de sair de casa ou de quem fica com a sensação de que se esqueceu de algo
Vazio de quem não tem direito de sentir vazio
De quem não tem nada e nada lhe pertence para esvaziar-se
Ou de quem sabe o que lhe pertence e apenas se esqueceu de avisar o mundo
Deve ser saudades. Mas eu tinha a nítida impressão de já conhecê-la
Até hoje.

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Song to say good bye

Que te ama, mas tem medo
E lá vou eu, correndo na chuva, rumo ao lugarejo cor de violeta
Segurando um insistente vestido florido que teima em levantar com o vento
Segurando o cabelo que teima em cair no meu rosto e encobrir minha visão
E segurando a minha mala, que está cheia de tudo o que consegui trazer na correria do dia
E lá vamos, deixar o mundo para traz, porque ele, meu bem, sequer se importa se vamos morrer
Ou se vamos viver
Porque o viver, amor, é tudo o que temos agora.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

Detalhes

Eu não tenho tempo, fato.
Mas me atento a detalhes que, no mínimo, seriam descartáveis.
Tipo luzes piscando ritmadamente
Tipo você achar minha cara engraçada
Tipo alguém me achar inteligente
Tipo você me achar uma mentira, porque minha inteligência não se aplica a todas as áreas da minha vida.
Tipo eu ser uma mentira.
Isso não é um mero detalhe, porque, se fosse mentira, tudo o que escrevi seria em vão
E tudo o que é em vão demonstra falta de importância.
Ainda assim, acho mero detalhe os sorrisos mentirosos
Os olhares desapercebidos que só eu percebo
E acho mero detalhe a grande maioria dos diálogos
Eles seriam menores, seriam práticos
E me poupariam tempo. Se, ao final, fossem úteis.
Sendo assim, o tempo voltaria para o que eu julgo importante.
Mas... o importante, na hora de maior crise, é descobrir o seu olhar no vazio de milhares de olhares e pensar, que por um segundo, ele se iluminou
E pensar que ele não foi por obrigação
Não foi porque o tempo obrigou o seu olhar a cruzar com o meu
Nem foi porque as conveniências assim querem.
Foi porque, simplesmente, o seu olhar cruzou com o meu e assim nós poupamos todos os diálogos e palavras perdidas ao longo do tempo.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Sem poesias por hoje

You scream, you learn

um pouco cansada demais para escrever.
( e não amor, não é tristeza nem insegurança, nem medo e nem poesia)
(hoje não tem poesia)
(a não ser que essa chuva que cai mais forte do que eu seja poesia)
(a não ser que o seu som seja música e que a água lave a alma)
(a não ser que você acredite que tudo seja real)