Sexta-feira, dia 5 de julho, acho que lá pelas 4h da madrugada...
A casa inteira acorda. A tensão começa a corroer o estômago.
As malas estão prontas, todos estão vestidos e nem o frio tira a ansiedade.
Enfim...após chegamos e ainda está escuro.
Toda a papelada tem que ser preenchida e isso é muito chato.
Pra quê tanta burocracia? Ah, já sei... porque viver custa caro.
Papelada assinada, o jaleco de bunda de fora está arrumado e adivinhe só? O médico não chega!
Legal saber que a vida começa com atrasos... isso explica tudo!
Pronto, chegou!
Eu tenho a sensação de que sou a única que está estressada e ansiosa.
E isso piora depois que eu coloco a roupa verde, aliás, a última moda nos hospitais.
Para ajudar, alguém me manda sair da sala! Como assim sair da sala? Eu paguei por isso!
Incrível como tudo é pago nessa vida...
Meia hora depois de ficar olhando na janelinha, por entre as máscaras que conversam com olhares, eu tenho a impressão de que estou há muito tempo ali, com o ruído de uma televisão que ligaram para me acalmar.
Alguém aparece na porta e enfim eu posso entrar.
A máscara no rosto atrapalha a respiração, mas isso é o de menos, já que o cheiro continua estranho.
Eu fico um tempo tranquilizando uma pessoa deitada, com olhar pouco lúcido, como se estivesse prestes a mudar de vida. E estava.
O médico me chama. Chegou a hora. Após 37 semanas.
Ele corta e alguém me manda encostar na parede para não desmaiar. Eu não desmaiaria por nada! Esperei por isso e vou ver até o final.
Poucos segundos depois...algo muito parecido com uma cabeça começa a surgir do meio de um monte de pele e sangue. Os médicos ficam tensos e rapidamente puxam.
E ela aparece... Suja, feia e com cor de vômito. É incrível como essa visão parece ser a mais bonita que eu já vi.
Mas ainda não era tão bonita...
Só se tornou perfeita quando o médico furou uma bolsinha, tipo uma bexiga e eu avistei outra cabeça.
A tensão aumentou... Ficou mais difícil puxar e eu com uma vontade imensa de ir lá fazer alguma coisa.
Não precisou...ela também nasceu, e chorando...com o mesmo choro que vai me perseguir pelo resto da vida.
Olhei para elas, com o mesmo olhar que sei que vou ter para sempre e elas pararam de chorar...Elas sim, mas minha mãe não. Ela estava desesperada. Eu também ficaria se não pudesse ver o que estava acontecendo e sem poder segurar as filhas.
Em questão de meia hora tudo isso se acalmou. Minha mãe estava tranquila. Já havia beijado as filhas na testa. As três agora.
Tudo ficou calmo. Menos eu. E ainda não estou e nunca mais estarei.
Minha visão critica sobre a vida não vai me permitir ficar calma enquanto eu não souber que o mundo é um pouco melhor para elas. E ele será, porque certas coisas me fazem acreditar nisso.
E elas? Que sejam bem vindas!
A vida espera... E eu estarei aqui, disposta a mostrar que não é tão ruim assim.
5 comentários:
PS. aos amigos que aguentaram ler o texto até o final...
Não costumo escrever textos longos. Mas este eu dedico a Bárbara e Helena. Espero que vcs entendam.
=]
Belo!
E não foi nem um pouco difícil chegar ao final do texto. Parecia que eu estava lá.
Não, parecia que você estava lá. Te vi na sala de parto. Parabéns Bih!
PS - Perca o preconceito com os textos longos. A vida é longa também - ao menos esperamos que seja.
seu texto tá lindo!
parabéns pelas novas paixões!
eu nem notei o tamnho do texto; fiquei lendo com uma emoção de como se eu estivesse junto na sala!
vc vai ver a coisa deliciosa que ter irmãos, e é engraçado tbm porque eles parecem ser uma outra versão da gente , ou uma es´pecie de extensão; bem , vc entenderá!
parabéns e cuide bem dessas duas criaturinhas !
Maravilhoso!!!
=)
Poderia ter escrito mais e mais que eu continuaria...
Nem precisa que vc vai ser uma mãe-irmã-coruja né?
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