quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ao frio

Chegou em casa no horário habitual, e como hábito, não comeria nada, pois a geladeira vazia não lhe permitiria tanto luxo. Adentrou-se no pequeno quarto, o qual achava grande nos últimos dias, já que passava tanto tempo sozinha que aquela imensidão lhe assustava. Percebeu que não usava todos os espaços daquele ambiente e que seus movimentos estavam reduzidos a cama, ao banheiro e a pia da cozinha. E notava isso pela concentração de coisas que deixava nesses espaços, talvez para marcar território, talvez para lhe fazerem companhia.
Abriu a janela, sentiu o vento insuportável do inverno lhe cortar o rosto, respirou fundo e acendeu um cigarro, seu mais novo hábito e que lhe ajudava a consolar o vazio da geladeira.
Pensou por que diabos se deixava vencer dessa forma e por que não era normal como todas as outras pessoas que enchiam seus espaços vazios com coisas produtivas. Olhava o cigarro, percebia que sequer gostava daquilo, mas o fato de ter que fumar na janela e olhar as janelas defronte lhe davam a sensação de pertencimento. Eu os vejo, creio que me veem - pensava.
A televisão, antiga companheira, tocava uma música de comercial de carro, daquelas que fazem pensar por que não ter um carro se a vida é tão mais agradável com ele.
Já no segundo cigarro percebeu que sua ansiedade tinha outro nome: solidão, coisa a qual nunca se dera o tempo de sentir e que agora lhe pesava nos ombros.
Queria ver sentido em sair e chegar. Ou ao menos queria não ter de pensar nisso.
Queria ter para quem ligar nessa hora. Em outras ocasiões teria, mas não naquele dia.

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