Acordou. Chorou. Fechou os olhos novamente e adormeceu. Agora seus sonhos já lhe eram mais agradáveis que o acordado. Chorava sem causa definida ao despertar. A realidade, que apenas ela sabia ainda que negasse, é que lá no fundo a causa era o acordar.
Alternara os últimos dias entre a irritação desmedida, a apatia generalizada e a desolação de quem sofre uma tristeza crônica. Já percebia no espelho os sulcos na pele, marcando a parte arroxeada abaixo dos olhos, aquilo que as revistas chamam de olheiras e que ela pensava ser velhice. Envelhecera de fato. Mirava as fotografias, mesmo as tiradas no dia anterior, com acessos de nostalgia, banhados por uma sensação de não pertencimento e saudade daquela criatura feliz que não fora. Mas se não fora, por que sorria tanto? Não conseguia intercalar o passado com o presente e o futuro, seguindo a ordem lógica que as professoras de português lhe ensinaram na escola. Adorava a parte de conjugação de verbos. Tudo parecia tão bem colocado ao seu tempo. A infância permite essa visão ampla e tranqüilizadora, sem as atribulações do amanhã e os arrependimentos do ontem. O encanto se perdera aos poucos, consumido por uma ansiedade crescente que lhe obrigava a pensar no futuro, mesmo que esse fosse passar o final de semana com a mãe comprando brinquedos e comendo em sua lanchonete preferida. Percebera, tardiamente, ainda que muito jovem, que o pensamento no futuro engasgava o presente e a condenava a uma sessão de arrependimentos sobre erros passados. A estrutura lógica por vezes se parte em pedaços não tão simples de organizar.
Um comentário:
pensa que seus textos estão crescendo juntos... cada vez melhores.
e ninguém disse pra gente que crescer seria fácil. mas é bonito, principalmente quando a angústia se trasnforma em texto.
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