Eu vou ficar bem, querido. Vou sorrir para todo mundo como
sempre fiz, virar mais essa cerveja, levantar a cabeça e fingir que está tudo
bem. Eu sempre acabo acreditando nos meus ímpetos de felicidade. Vai ficar tudo
bem. Mesmo quando eu não achar uma casa para morar, um emprego descente para
vender minha capacidade mental, nem realizar os sonhos perfeitos que criei na quinta
dimensão. Até mesmo quando eu precisar dormir num canto mais empoeirado que meu
cinzeiro eu vou levantar a cabeça, mexer o cabelo para o lado esquerdo, passar
maquiagem, talvez um batom vermelho, e sair na rua. Mesmo quando eu não tiver
fumaça para inalar. Tudo vai ficar bem, mesmo quando meus estados de consciência
estiverem em seu devido lugar. Falta de hábito. Posso ser mais inteligente do
que eu acredito. Posso morar do outro lado do mar, posso sobreviver a temperaturas
negativas e até me divertir ao ver meus dedos ficarem com as pontas roxas. Eu sei
que estou viva. Eu posso até chorar querido, eu sempre choro, você lembra? Eu
posso até sentir dor nos ossos de saudades, mas eu posso virar mais uma cerveja
e dar risada olhando fotos sob a luz do abajur mofado do quarto. Devia trocar a
cúpula. Devia trocar alguns amigos também, eles me desanimam às vezes. Querido,
vou ficar bem. Vou ali na esquina com algumas moedas para comprar mais cerveja.
Já volto.
Um comentário:
Eu achei do caralho esse texto!!
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