terça-feira, 28 de setembro de 2010

listas (desconectividades #7)


Sair de casa Pagar conta Passar na biblioteca. Nietzsche, Kundera ou Amos. Uns vinte autores e o dobro de prateleiras. Eu resolvo na volta. Perfumaria. Shampoo Pasta de dente Sabonete. Merda esqueci o cotonete outra vez. Mercado. Papel Comida Será que levo um doce Acho que cerveja e petisco resolve. Ônibus. Esqueci de carregar o bilhete e de noite vai fazer falta. Liga Desliga Passa relatório Entrevista Escreve. Come porque comer é evento social Preciso parar de almoçar tão cedo e com essas pessoas. Senta Escreve Entrevista. Come Agora de fome mesmo. Academia Corre Pula Preciso comer mais banana e comprar um tênis novo. Esqueci de ligar para a moça da depilação e dar o telefone que ela pediu no mês passado Amanhã eu faço. Oi amor Cheguei em casa sim. Estou bem e você Corrido Tudo bem Eu ligo depois. Lava Arruma Banho Leitura Televisão no mudo Cama.  Não dorme O sono já chega Se acalma Para de passar a lista na cabeça O dia já acabou

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

um tal viver (desconectividades #6)

Defina viver. Defina em teorias de final feliz ou começo feliz ou enredo completamente feliz. Mas não se esqueça de entrar no mérito de que ninguém vive pensando que está vivendo pra valer. Não dá para encarar a vida no tal presente se nos detemos a pensar nela nesse tal presente. É a loucura instaurada. Será que estou vivendo? Será que estou dedicando a cada segundo a minha felicidade? É a abstração em outra escala. Pare de buscar e comece fazer, aqui agora. Pare de pensar e viva. Mas vivo ou penso ou penso que estou vivendo? Ou respiro? Ou ouço as piadas infames do dia e tento achar graça nelas para pensar que o dia não consiste numa felicidade completa? Ou aceito que a felicidade não existe e vivo? Que ela não existe, creio que todos sabem. Mas e a vida? E essa vida pensada? Ou arrastada? Ou parada? Quem define? Quem pensa? Quem instaura o momento “Viva!” no calendário e deixa todos livres para simplesmente viverem? Não conseguiríamos. Passaríamos o tempo pensando e planejando e morreríamos achando que um dia vivemos. Quem sabe...
Com sorte, sim.

flores

Compraram flores e arrumam os vasos da janela.
E por alguns instantes eram tudo o que queriam ser.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A bolha.


Depois de ler alguns textos sobre onde está a felicidade, assistir palestras sobre como a filosofia mostra um caminho para um mundo melhor, ouvir discursos apaixonados de quem não sabe mais onde fincar os pés e se agarra a qualquer teoria de viver para achar sentido no mundo e fazer terapia para encontrar seu eu interior, só conseguia definir uma coisa: havia uma bolha que circundava sua cabeça e a deixava confusa, sem saber para que lado andar. Dar uma chance aos seus semelhantes ou viver a própria vida com mais intensidade? Amar quem está ao seu lado ou amar a si em primeiro lugar? Comprar, já que dinheiro ninguém leva para o túmulo, ou não comprar e se desligar dessa sociedade capitalismo que só valoriza o consumo? Cuidar de seus planos ou trabalhar sem saber direito para que ia ao escritório todo dia?
Se deparou com infinitas estradinhas que levavam só deus sabe onde. Nada parecia estar ligado. Sem mapa nem guia turístico, optou pela escolha dos covardes. Virou as costas e foi para casa se drogar, já que assim conseguia ser tudo isso sem deixar de ser as outras coisas.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

do injusto tempo


- Ah, éramos tão jovens... –  suspirou olhando a foto.
(a imagem em questão havia sido tirada há poucos meses)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

.amores.amoras.

quando eu chegar, saiam correndo, como sempre fazem. não é de medo, eu sei, é para mostrar todas as coisas que vocês descobriram nesse pouco tempo de mundo. depois, me deem o beijo que eu vou pedir. e sentem-se no meu colo, uma de cada lado, porque para vocês, minhas pernas tem estrutura de aço e jamais deixarão de servir de colo, mesmo quando estiverem grandes. chorem. briguem. mas não se esqueçam de me dar sorrisos. não qualquer um. o sorriso de cada uma. com aquele ar de que nada mais importa senão sorrir. e pulem. e corram. e façam graça para que eu olhe. eu vou olhar, porque nada mais sei fazer senão olhá-las. e tentem falar que me amam, porque isso eu levo no meu coração quando estou longe. e não fiquem com cara de quem não sabe o que fazer quando eu for embora. eu volto. sempre voltarei.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

live Together, die Alone


As escolhas não impedem o ciclo da vida. As mortes não se abalam com os nascimentos, e estes continuam obstinadamente, como que contrariando o fluxo que insiste em ruir e parecer ruim. Mas ainda hoje se nasce. E se morre. Segundo teóricos, morre-se menos que antigamente, mas ainda nos dias cinza não deixo de achar que a morte paira como que marcando presença para não nos esquecermos dela. E a vida chega, teimosa como de costume. E continuamos onde estamos, porque não sabemos ser muito senão nós mesmos, nessa intensidade solitária que nos espreme entre um caminho calmo e outro, que talvez nos dê a resposta de todos os tempos.

O dia quando.

É quando a eminência de um dia cinza aperta o peito antes mesmo de o sol sair e corrói o sorriso de ontem transformando-o em expressão semanal de quem nada vê de vantajoso em sair da cama. É o aperto de correr a mão a procurar em vão seu corpo em meio aos cobertores. É a mentira no espelho garantindo que o hoje será melhor que ontem e enquadrando um sorriso no rosto pálido de cera, conseguido em longas noites insones. É a necessidade de sair só para manter-se vivo. É quando o jogo anuncia a perda tão logo o jogador se prostra diante do tabuleiro. É o guardar e guardar até transbordar de sinceridade.

sexta-feira, 30 de julho de 2010