segunda-feira, 1 de março de 2010

I'm human and I need to be loved


Estava a tanto tempo engasgada com as palavras que, quando conseguiu dizê-las, adoeceu. Não sabia amar, nunca se dera ao trabalho. E quando disse que amava, em resposta a declaração matinal do namorado, soube que perdera todas as forças. Dera a ele tudo o que tinha para si. Não se amava mais. Não tinha amor suficiente para os dois. Odiou-se logo que o viu sair pela porta de manhã, levando consigo o que fora dela por tanto tempo. Deixou-a na cama, relegada a um corpo que também não lhe pertencia mais.
Queria o amor de volta, então tentou negar. Mas já não estava ali. E ela conhecia o poder das palavras bem o suficiente para saber que destroçara seu coração ao amar outrem.
Antes fosse o corpo, pensou ela. Mas sabia que nunca tivera domínio sobre o seu próprio corpo e que dar-lhe a alguém em nada lhe afetava. Emudeceu ao longo do dia.
Maquinava em sua cabeça formas de roubar um amor para si. Pegar outro coração que pudesse suprir a necessidade de afeto. Não tinha. O namorado tinha apego o bastante para os dois e mais cinco gerações, mas não lhe bastava.
Então o que fazer? Nada lhe dava vontade. Perdeu o apetite. Perdeu o sorriso. Voltou para casa, abraçou o ursinho que lhe acompanhava desde a infância com força o suficiente para mantê-la sufocada. E assim o fez até o momento que conseguiu destroçar o bicho, tirando dele o amor que pensava ter depositado em tantas noites de abraços sonolentos. Percebendo que a espuma não tinha vida, resolveu arrancar o próprio coração na busca cega por algo que pulsasse e lhe desse a sensação de estar viva. Adormeceu sem perceber que perdera também a capacidade de receber o amor alheio.

Um comentário:

Unknown disse...

Caralho, tava lendo o que a Clara e a Sarah escreveram para você. Mas na maioria das coisas vejo de uma forma beeeeeeem diferente. Engraçado. o.O