terça-feira, 29 de junho de 2010

senhora do destino (desconectividades # 5)


As coisas não duram, disse ela com a mesma naturalidade com que pedia o chá mate na lanchonete todos os dias. Tentando compreendê-la, o homem pôs-se a ligar passado com presente com perguntas sem resposta com respostas para quaisquer perguntas.
Nada alterou seu pensamento. Ela continuava a pensar na não durabilidade das coisas, ainda sem saber por que insistia em ter tudo a sua volta para sempre, forçando-se a relações estagnadas e com medo de perder aquilo que não fazia questão de manter presente enquanto se esforçava para não destruir o que realmente queria por perto.
Se pudesse descobrir o fim, seria mais simples e tudo planejado. Não, querida, essa é a parte legal da vida, a gente não sabe quando tudo vai acabar. Mas ela sabia... Ela sempre sabia.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Lost in a cruel paradise

Como não soubesse para onde ir, ficou onde estava, estagnada em pensamentos sobre o que poderia ser feito e não soube.
Caiu num buraco para pensar sobre quem era, mas descobriu-se igual a tudo e irrelevante ao ponto de não fazer diferença o acordar. Não, não era depressão. Não lhe entristecia o viver. Cansava-lhe sim a vida enfadonha, com um ar de repetição constante e desnecessária aos olhos do mundo, a seus olhos. Desnecessária como todos que nesse mundo vivem sem diferenciar-se de um poste. Desnecessária como um operário numa linha de produção, substituível por qualquer formiga que valesse o salário. E vivia. Perdida num mundo que tinha poucas coisas a seu alcance, com a etiqueta detestável da mediocridade colada em sua testa. Tudo médio, nada palpável, tudo transferível e com pessoas descartáveis. Vivia, porque não sabia morrer sem nada ser.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Medos

Ela acordou sobressaltada pelo seu sonho. Havia conseguido o que queria, e se assustou ao ver escapar pela porta de manhã cedo.
Correu, não deu tempo. Ele tinha ido. E levado junto tudo o que lhe interessava: a mágica de esquecer quem era ela.
Agora ela estava sentada, vestindo a camiseta do pijama e esperando que o sofá afundasse e ela pudesse ter novamente seus olhos embaçados por algo melhor do que esse mundo em que ela vivia.

Caçadas (desconectividades #4)


Voava com a fumaça que subia e rodopiava pelo ar como quem quer fugir pela janela e virar nuvem no céu. Antes fosse abóbada celeste. Perguntou-se se existe palavra para quando a gente esquece o que devia ter lembrado. Memorizou-se e saiu destemida a caçar borboletas rebeldes de vento. Rebeldia sem causa de quando a gente percebe que já é grande demais para a jaula que nos aprisionaram com tanto amor. Existe palavra para quando fugimos do tudo o que nos cerca? Existe, linda, chama medo.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

diálogos bipolares

- Eu te amo, mas sabe, tem alguma coisa...
- Que coisa?
- Você. Sua existência me incomoda.
- ...
- Sabe, não consigo gostar do seu jeito, das suas coisas. Eu só amo, mas não tem nada que me prenda a esse amor. Tudo em você é dispensável.
O menino levantou, bateu a porta de casa e ficou sentado na escada. Quase não piscava enquanto esperava o elevador.
Ela abriu a porta. Olhou. Fechou.
Abriu novamente.
- Não quer ficar para jantar e ver a novela? Um filme talvez?
O elevador apitou e ela assistiu a mais uma tela quente sozinha, sem entender porque ele tinha ido.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

os males do sonhar

Gritou, como se o grito expulsasse o medo do corpo. Procurou-o na cama e não o encontrou. Entre o estado de inconsciência causado pelo sono e o acordar definitivo rememorou o que se passara. Eram personagens de uma história já contada em muitas versões. História de final conhecido sobre o fim. Passara-se certo tempo até que pudesse ver além de suas lembranças do que acontecera. Eram felizes, só sabia disso. Eram bonitos como uma foto dessas onde o olhar brilha estrategicamente posicionado sob um raio de sol. Nunca vira sorriso igual. Eram parte de uma coisa única a ser dividida tragicamente numas das tardes perfeitas que passavam ignorando a presença do mundo. E nesse ignorar foram percebidos e repelidos. Não alegravam a ninguém, somente a si próprios e isso não era bom. Existiria palavra para falar de um ódio maior que o ódio? - perguntava ela à criatura em sua cabeça. Não importa, é por sentimento assim que você está aqui.
E ela se viu novamente, gritando. Em camera lenta acordou, olhando-o enquanto voltava ao quarto. Ele estava ali. Estaria sempre. Era só não sonhar novamente e tudo estaria em seu devido lugar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

cotidianos (desconectividades #3)

O chacoalhar do ônibus a enjoava. Por que, deus, tinha que tremer tanto? Por que as pessoas mascam chiclete de tutti-frutti e deixam o cheiro dominar o ambiente? Ao menos não era o cheiro da lasanha queimada no forno, pensou, lembrando do incidente da noite anterior. Tinha uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. E comeu. E despejou na pobre pia, sua amiga de longa data que não a agüentava mais debruçada sobre a torneira pedindo aos céus que lhe mandassem um organismo menos lesado pelos malefícios do tempo.
Que mal lhe pergunte, você está passando bem, perguntou a moça da entrada quando ela chegou com óculos escuros, mesmo sabendo que não estava claro para tanto. Eu? Estou ótima. E voltou-se para a entrada do banheiro, enfrentando o fundo da privada como se fosse um embate para manter sua dignidade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

de amores improváveis

Colocou-se novamente sob seu controle, menos pálida e fraca agora. O medo dissipara-se em dias que preferia não contar e que passaram rápido como sonho. Passavam ainda, corrigiu o pensamento. E passavam muito bem. Quase sem que percebessem que o mundo se fechara para que nada lhes afetasse. Agora conseguia olhá-lo por mais tempo sem temer revelar-lhe segredos. Foram felizes desde aquele dia no passado e assim ainda eram. Dali até o tempo perder-se de vista.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

delírios (desconectividades #2)

Foi ao fundo pensando subir por toda a imensidão quando ocorreu que não eram os melhores degraus a descer quando se olha para cima. Pôs-se no caminho a mirar a janela enquanto o mundo andava de costas. Ou seria ela? Que seja - pensou fazendo bolhas de sabão imaginárias - se eu virar, o mundo vira também, então estaremos ambos andando pelo lado contrário. Saiu a correr de um vento que insistia em ventar em suas bolhas e levá-las para o alto. Existe uma palavra para quando queremos lembrar alguém que já foi e que não conhecemos? E chegando onde não lembrava porque estava indo, decidiu que voltar seria melhor que sentar e cantar enquanto a lua deixava o sol de lado para brilhar num cantinho escuro do mundo claro que ela viu quando acordou. Existe uma palavra para aquelas pessoas que deixamos para trás porque não nos serviam mais? Chegou onde desceu para subir e, entediada, voou com um balão para fora da janela levando com ele a casa e as roupas dela. Olhando-o enquanto vinha em sua direção, pensou que era a palavra que procurara pelo vento e como não chegara a tanto, retornou. Existe uma palavra para saber que escolhas foram certas ou erradas? Existe querida, chama vida.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

foi que não foi e desistiu (desconectividades #1)

Viu-se num mundo paralelo desenhando sobre a poeira do vidro da janela da sala o destino que traçaria para os anos que já se foram. Para os que viriam, desenharia na espuma de detergente na pia da cozinha. Dali sairia para uma eternidade fadada a um fim de morte sem que lhe explicassem a causa. Morreria de amor era sabido pela cigana que lhe pegou a mão naquela tarde sem que percebesse. De amor morreriam todos aqueles que num mundo paralelo se quedassem a entender este em que vivemos, disse aquela que com roupas coloridas viu passar a moça a qual leria o futuro mentalmente. De medo de um fim da tarde desamado previsto previamente quedou-se a procurar abrigo dentro das gotas que caíam do céu anunciando a nova chuva de verãooutonoinvernal que se perpetuava na cidade sem clima definido para a qual migrara no futuro do pretérito. Dentro do sereno viu numa escala calendoscópica o mundo que paralelamente criara e pôs-se novamente em uma dimensão colorida à multicores que iluminava a sala já cheia de luz que insistiam em se acender ao amanhecer. Amanheceu-se então. Anoiteceu-se logo em seguida, assustada com a previsão de futuro sem futuro na qual insistiria em existir dia e noite, noite e dia, num espaço sem fim de uma linha de poeira sobre a janela.