segunda-feira, 25 de outubro de 2010

mudanças climáticas

O reflexo do sol por entre as árvores lhe dava uma sensação de embriaguez. Era como se brincasse de criança girando e ficando tonta enquanto olhava para a luz que se escondia e, logo em seguida, ardia nos olhos para lembrar-lhe da existência da retina.
O azul forte no céu marcava o início de um dia que não tardaria a mudar de clima, como bem anunciara as moças do tempo na televisão. Previsão é um mercado em ampla expansão nesses tempos incertos. O esplendor de fotografia desfez-se quando a primeira lágrima do dia caiu, lembrando-lhe que as luzes brilhantes se desfazem quando as persianas são fechadas. A vida não é um sonho, pensou (ainda que tardasse a se conformar com o fato).

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

pretérito imperfeito

Acordou. Chorou. Fechou os olhos novamente e adormeceu. Agora seus sonhos já lhe eram mais agradáveis que o acordado. Chorava sem causa definida ao despertar. A realidade, que apenas ela sabia ainda que negasse, é que lá no fundo a causa era o acordar.
Alternara os últimos dias entre a irritação desmedida, a apatia generalizada e a desolação de quem sofre uma tristeza crônica. Já percebia no espelho os sulcos na pele, marcando a parte arroxeada abaixo dos olhos, aquilo que as revistas chamam de olheiras e que ela pensava ser velhice. Envelhecera de fato. Mirava as fotografias, mesmo as tiradas no dia anterior, com acessos de nostalgia, banhados por uma sensação de não pertencimento e saudade daquela criatura feliz que não fora. Mas se não fora, por que sorria tanto? Não conseguia intercalar o passado com o presente e o futuro, seguindo a ordem lógica que as professoras de português lhe ensinaram na escola. Adorava a parte de conjugação de verbos. Tudo parecia tão bem colocado ao seu tempo. A infância permite essa visão ampla e tranqüilizadora, sem as atribulações do amanhã e os arrependimentos do ontem. O encanto se perdera aos poucos, consumido por uma ansiedade crescente que lhe obrigava a pensar no futuro, mesmo que esse fosse passar o final de semana com a mãe comprando brinquedos e comendo em sua lanchonete preferida. Percebera, tardiamente, ainda que muito jovem, que o pensamento no futuro engasgava o presente e a condenava a uma sessão de arrependimentos sobre erros passados. A estrutura lógica por vezes se parte em pedaços não tão simples de organizar.

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

abrazos rotos


Consumiam-se em desesperos internos e compartilhados. A dor era a mesma. Inexplicável e sem causa definida. Mas doía. E, como se previssem o futuro iniciado pelo erro da noite anterior, corrigiram-se o quanto antes, sufocando os medos num abraço mudo em um dia em que nada mais importava a não ser estar junto sem nomenclaturas para distorcer a perfeição do silêncio.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

se pudesse nomear o dia, ele se chamaria tristeza.


Errou as palavras. Errou ao concertá-las. Errou um tanto mais quando explicou todo o engano. De erros consumiu-se, só por enxergar o exato momento da ruptura. Com mágoas cobriu-se, num abraço insistente de quem não queria perder o sono. Por culpa de pesadelos revirou-se, numa noite tempestuosa sem barulho de chuva para amenizar os doloridos da alma. E temia que os braços ficassem longe demais para ela alcançar, pobre menina, tão pequena. E quanto mais queria, perdia. E errava, num erro constante de quem quer ser feliz... mesmo quando de fato o é.

metáfora para cortes doloridos #1


...é quase a mesma coisa daquela garrafa que você cortou com lâmina fina. A água sai por vincos quase imperceptíveis. Lentamente. Sem deixar-se abalar pelo desejo de esvair de uma só vez.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

listas (desconectividades #7)


Sair de casa Pagar conta Passar na biblioteca. Nietzsche, Kundera ou Amos. Uns vinte autores e o dobro de prateleiras. Eu resolvo na volta. Perfumaria. Shampoo Pasta de dente Sabonete. Merda esqueci o cotonete outra vez. Mercado. Papel Comida Será que levo um doce Acho que cerveja e petisco resolve. Ônibus. Esqueci de carregar o bilhete e de noite vai fazer falta. Liga Desliga Passa relatório Entrevista Escreve. Come porque comer é evento social Preciso parar de almoçar tão cedo e com essas pessoas. Senta Escreve Entrevista. Come Agora de fome mesmo. Academia Corre Pula Preciso comer mais banana e comprar um tênis novo. Esqueci de ligar para a moça da depilação e dar o telefone que ela pediu no mês passado Amanhã eu faço. Oi amor Cheguei em casa sim. Estou bem e você Corrido Tudo bem Eu ligo depois. Lava Arruma Banho Leitura Televisão no mudo Cama.  Não dorme O sono já chega Se acalma Para de passar a lista na cabeça O dia já acabou

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

um tal viver (desconectividades #6)

Defina viver. Defina em teorias de final feliz ou começo feliz ou enredo completamente feliz. Mas não se esqueça de entrar no mérito de que ninguém vive pensando que está vivendo pra valer. Não dá para encarar a vida no tal presente se nos detemos a pensar nela nesse tal presente. É a loucura instaurada. Será que estou vivendo? Será que estou dedicando a cada segundo a minha felicidade? É a abstração em outra escala. Pare de buscar e comece fazer, aqui agora. Pare de pensar e viva. Mas vivo ou penso ou penso que estou vivendo? Ou respiro? Ou ouço as piadas infames do dia e tento achar graça nelas para pensar que o dia não consiste numa felicidade completa? Ou aceito que a felicidade não existe e vivo? Que ela não existe, creio que todos sabem. Mas e a vida? E essa vida pensada? Ou arrastada? Ou parada? Quem define? Quem pensa? Quem instaura o momento “Viva!” no calendário e deixa todos livres para simplesmente viverem? Não conseguiríamos. Passaríamos o tempo pensando e planejando e morreríamos achando que um dia vivemos. Quem sabe...
Com sorte, sim.

flores

Compraram flores e arrumam os vasos da janela.
E por alguns instantes eram tudo o que queriam ser.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

A bolha.


Depois de ler alguns textos sobre onde está a felicidade, assistir palestras sobre como a filosofia mostra um caminho para um mundo melhor, ouvir discursos apaixonados de quem não sabe mais onde fincar os pés e se agarra a qualquer teoria de viver para achar sentido no mundo e fazer terapia para encontrar seu eu interior, só conseguia definir uma coisa: havia uma bolha que circundava sua cabeça e a deixava confusa, sem saber para que lado andar. Dar uma chance aos seus semelhantes ou viver a própria vida com mais intensidade? Amar quem está ao seu lado ou amar a si em primeiro lugar? Comprar, já que dinheiro ninguém leva para o túmulo, ou não comprar e se desligar dessa sociedade capitalismo que só valoriza o consumo? Cuidar de seus planos ou trabalhar sem saber direito para que ia ao escritório todo dia?
Se deparou com infinitas estradinhas que levavam só deus sabe onde. Nada parecia estar ligado. Sem mapa nem guia turístico, optou pela escolha dos covardes. Virou as costas e foi para casa se drogar, já que assim conseguia ser tudo isso sem deixar de ser as outras coisas.