quinta-feira, 13 de outubro de 2011

trecho de livro #parte1

Plam, plam, plam.
Um barulho seco ecoava pelo vão entre os prédios e entrava de janela em janela, causando um alvoroço tremendo. Cada um, a sua maneira, protestava contra o martelar incessante do oitavo andar. Eu botei uma música, a maioria fechou as janelas (ou estariam fora trabalhando?) e havia outros que devolviam o estardalhaço com marretas e furadeiras. Atitude incompreensível. Transformou-se numa sinfonia caótica, retumbando no centro da cidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

lebre de março

Passei os últimos sete dias, ou mais, repetindo a infantil frase “eu quero um coelho”. Meu namorado, com uma paciência invejável, me distraia. Ainda assim, engravidei de um coelho. Criei expectativas dignas de uma gestante, que se emociona e planeja e fala e não muda de assunto .
Percebi que estar a maior parte de meus dias sozinha, em silêncio, estava me deprimindo. Uma nova depressão. Ao contrário da antiga, agora o tempo era lento e eu ainda não aprendera a organizá-lo. Precisei de distração, algo que exigisse atenção constante. Algo vivo. Só um ser vivo e nada mais importa. Barulho. No dia do encontro, não foi amor a primeira vista. Até cogitei outros, menores. Mas é tão esquisito quanto eu. Fica num canto, roendo uma grama seca.
Ainda não sei o que fazer com o tempo mas talvez a lebre de março com relógio me enfie num buraco de fundo mágico quando eu estiver entediada, confundindo sonhos com realidades.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

cenas tristes da vida no centro

Ver um marmanjo, no sentido mais pejorativo da palavra, encostado numa esquina, sob um colete de guarda carros - seria autoestima ou intenção de passar um ar de "otoridade"? - e usando de refúgio a madrugada a preparar um melaço de cola, numa garrafa pet cortada, que ele venderá a uma dúzia de pivetes - no sentido mais cruel da palavra - com menos de 10 anos e na rua por deus sabe que razões.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O punk

Ouvi seu relato numa noite em que tinha desistido de conhecer pessoas e ouvir histórias. Depois de um tempo viajando e escutando uma língua não materna dá vontade de ficar em silêncio por alguns minutos. Ainda sim, cumprimentei o hippie que veio me vender pulseirinhas e, alegre e simpática pelas taças de vinho mendocino, o convidei para sentar e beber comigo. A atração dele por Bukowski e as tendências anarquistas eram ótimas. Bem longe do roteiro comum que eu ouvira até então. Apresentou-me o punk num momento oportuno, num misto de encontro casual com marcado, concretizado pela certeza que têm aqueles que vivem na rua: vão encontrar os amigos em algum momento, seja numa esquina ou praça.
O punk era jovem, creio que da minha idade, com um sorriso de entorpecido. Chegou falando do andamento das vendas de suas pulseiras e logo foi se abrindo com a convidada brasileira. Ah mano, então você é brasileira, disse me deixando um tanto atônita. A pronúncia era boa. Foi então que seu relato começou. Ele e a esposa haviam passado pouco mais de seis meses em território tupiniquim, carregando a tiracolo o muleque, seu filho de dois anos. Nada de turismo. Eram punks, queriam saber o que tinha depois da tríplice fronteira e só. Chegaram a São Paulo e, puta merda! aquela cidade imensa, que assusta qualquer caboclo. Falava tanta gíria que era impossível não perceber que a rua tinha sido sua casa por mais tempo que o necessário, seja na Argentina ou no Brasil. E contava a mim e ao amigo, que não entendia lhufas de português, suas revelações.
- É tudo lindo lá véio, tudo grande. Todo mundo te dá comida e se você se esforçar um pouco não passa fome que nem aqui. Se num tem trabalho, tem gente boa dando a mão, roupa, calcinhas e leite pro meu piá.
Quando estava bem, alugava um quartinho nos fundos e curtia o marasmo de quem tinha vendido artesanatos suficientes para deitar de cabeça livre na cama.
- Quando acaba a bufunfa (asi que se habla, no?), é só mudar, fazer um corre, umas pulseiras. Até assistência social do governo te ajuda. E manooo, tem frutas de tudo quanto é cor mano, o barato é loco.
Passou de São Paulo até o Mato Grosso e voltou pela fronteira, não sem antes conhecer Trindade, Rio e uns lugares que já nem lembrava mais o nome. Só não usava crack.
- Crack te mata, é loco. Se você usa crack ninguém te dá dinheiro e você fica ali panguando na rua o dia todo. Os cara até fica babando. Num rola. Ah, e hospital é uma bosta também, daí nem vira passar mal né.
Foi embora depois sem eu me dar conta do tempo, do adiantado da hora, de pedir nome e telefone. Eu estava empolgada com a simples liberdade dele e só falei hasta luego e recebi um falo ae em troca.
Falo ae é tipo tchau, mas eu ia embora no dia seguinte. E de fato fui, pensando em que merda eu fazia da minha vida presa numa corrente que ninguém tinha colocado e pensando no quanto esse meu país é esquisito. Deu vontade de viver assim, por um segundo, por esse tal sentimento de liberdade que o punk sequer se importava. Mudei de idéia quando passei mal na madrugada seguinte e recorri a um taxi para me levar ao hospital. Taxi não é coisa de punk, intoxicação alimentar não é coisa de punk e eu vou amargar a vida porque nunca fui punk.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Escrevo por forças de um impulso que diz que o faço mal, mas se não o fizer, não melhorarei.


O café não inspira mais, só doem as têmporas e me faz comprimi-las com os indicadores para evitar uma explosão com miolos manchando o tapete bege do escritório, cor de burro quando foge desbotado.
Esforço-me em acreditar em sentido, em predestinação, em correr atrás e conseguir, mas esbarro no sono sob o lençol quente de manhã. Esbarro nos sonhos sobre o fim do mundo. Tão bonitos, trágicos, com cores incompreensíveis a luz do dia. E o mundo acaba e eu só sinto uma necessidade de dormir mais para saber o depois. E acordo. Merda de despertador. O que vem depois da Terra saindo cinco graus do eixo e dos maremotos e do sol com cor violeta?
Bebo café. Primeira xícara. Estou bem. Passa o dia. Segunda xícara seguida logo da terceira. Estou bem. Meia hora depois, têmporas esmagadas, nuca constantemente apertada com a palma das mãos. Estalos no pescoço. Crec, lado direito, crec crec crec, esquerdo. Relaxante. Vai consumir minhas cartilagens e vou me arrepender disso na velhice.
E o mantra na cabeça, martelando com um toc toc: ninguém lê para assistir ao exercício vernacular do próximo.
Eu sei, mas ninguém lê mesmo que eu o faça diferente.
Professora do caralho, vou me lembrar da crítica sobre conexão entre as frases. Elas nunca se conectam porque eu não penso de maneira linear, eu queria ter dito, mas salvei o recado como exemplo da minha incapacidade textual.
O próximo passo é abandonar o café e recorrer a inspiração pela bebida.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

qualquer lugar


Soube que estava em casa quando a amiga, aquela eterna, de segredos incontáveis, virou na esquina, à esquerda, Consolação com Maria Antônia, fazendo com que ela seguisse sozinha, por mais seis quadras. O trajeto era o mesmo de anos. Conhecia putas, mendigos, garçons.  Sabia identificar trombadinhas viciados em cola e diferenciar de pobres coitados de calçada. E até se colocava do lado mais seguro, para tentar se proteger do nada. Era sua casa. Poderia andar ali mesmo que estivesse fora de si – e chegaria bem.
O desenho geométrico do calçamento quase em nada se entendia com aquela cidade desordenada, de prédios que a faziam se sentir segura, mesmo que em perigo. Estava em casa, sabia. Mesmo com o cheiro de podre que pairava no ar aos domingos, o dia em que o serviço municipal de lavagem de ruas não funcionava e deixava o ambiente mais austero, quase que afastando as pessoas. A ela não. Era sua casa. Mesmo que tivesse que apertar um pouco mais a alça da bolsa contra o corpo, conseguiria chegar ao número 43 todos os dias em segurança.
A cerveja, nas mesas daquela rua imunda, tinha um gosto conhecido. O mesmo que a faria sentir leves pontadas na cabeça ao chegar em casa, sempre de estômago vazio, um pouco pela falta de dinheiro, mas mais por preferir gastar tudo com bebida e não com batatas, na companhia da amiga. Sempre aquela boa amiga, confidente de pensamentos impublicáveis e risadas tristes de nostalgia da vida que deixavam de viver enquanto vivam as tentativas de felicidade. Sim, eram felizes de certo modo, mesmo que ainda não fossem livres.

domingo, 6 de março de 2011

start to melt

Não teve coragem de olhar para trás.
Jamais haveria de saber se fora significativo para ambos.

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011