quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escrevo melhor de coração apertado.




Eu vou ficar bem, querido. Vou sorrir para todo mundo como sempre fiz, virar mais essa cerveja, levantar a cabeça e fingir que está tudo bem. Eu sempre acabo acreditando nos meus ímpetos de felicidade. Vai ficar tudo bem. Mesmo quando eu não achar uma casa para morar, um emprego descente para vender minha capacidade mental, nem realizar os sonhos perfeitos que criei na quinta dimensão. Até mesmo quando eu precisar dormir num canto mais empoeirado que meu cinzeiro eu vou levantar a cabeça, mexer o cabelo para o lado esquerdo, passar maquiagem, talvez um batom vermelho, e sair na rua. Mesmo quando eu não tiver fumaça para inalar. Tudo vai ficar bem, mesmo quando meus estados de consciência estiverem em seu devido lugar. Falta de hábito. Posso ser mais inteligente do que eu acredito. Posso morar do outro lado do mar, posso sobreviver a temperaturas negativas e até me divertir ao ver meus dedos ficarem com as pontas roxas. Eu sei que estou viva. Eu posso até chorar querido, eu sempre choro, você lembra? Eu posso até sentir dor nos ossos de saudades, mas eu posso virar mais uma cerveja e dar risada olhando fotos sob a luz do abajur mofado do quarto. Devia trocar a cúpula. Devia trocar alguns amigos também, eles me desanimam às vezes. Querido, vou ficar bem. Vou ali na esquina com algumas moedas para comprar mais cerveja. Já volto.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

C.F.Abreu

"(...)Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”

ansiedade

Ah, a ansiedade. Nos dá presentes, viagens, dinheiro, reconhecimento, amores.
Quando chega a hora é diferente. É como pedido de namoro na adolescÊncia. Você imaginou
uma caixinha com aliança e jantar a luz de velas, mas aceitou o pedido acanhado ao sair da escola.

trecho de livro #parte2

O soluço anunciou a crise. Longe, na outra ponta da linha, Sofia soube que o marido entrara na semana de reclusão. Sentiria-se triste, fraco e acordar perderia o sentido momentaneamente. Às vezes durava mais, às vezes menos, mas o certo era que Sofia veria sua incapacidade de alegrar o marido desenhar a convivência cotidiana. Nem o toque, o sexo ou o café da manhã agradariam.
- Mãe, ele ficou estranho de novo.
- Tenha paciência, minha filha.
- Eu tenho, mãe, eu tenho...

Vicente coçou a cabeça.
-Preciso me pentear, disse para o espelho.
Era inevitável e recorrente, mas Vicente careceia da motivação juvenil, da ânsia lhe subindo a garganta. Hoje, o brilho nos olhos e o apreço pela vida duram menos. A empolgação não passa de um sopro curto para apagar vela. Naquela manhã serviu para que penteasse o cabelo.
- Eu poderia ser mais. Minha pior escolha foi a mediocridade.
Apanhou o barbeador elétrico. Nada mais havia a fazer.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

trecho de livro #parte1

Plam, plam, plam.
Um barulho seco ecoava pelo vão entre os prédios e entrava de janela em janela, causando um alvoroço tremendo. Cada um, a sua maneira, protestava contra o martelar incessante do oitavo andar. Eu botei uma música, a maioria fechou as janelas (ou estariam fora trabalhando?) e havia outros que devolviam o estardalhaço com marretas e furadeiras. Atitude incompreensível. Transformou-se numa sinfonia caótica, retumbando no centro da cidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

lebre de março

Passei os últimos sete dias, ou mais, repetindo a infantil frase “eu quero um coelho”. Meu namorado, com uma paciência invejável, me distraia. Ainda assim, engravidei de um coelho. Criei expectativas dignas de uma gestante, que se emociona e planeja e fala e não muda de assunto .
Percebi que estar a maior parte de meus dias sozinha, em silêncio, estava me deprimindo. Uma nova depressão. Ao contrário da antiga, agora o tempo era lento e eu ainda não aprendera a organizá-lo. Precisei de distração, algo que exigisse atenção constante. Algo vivo. Só um ser vivo e nada mais importa. Barulho. No dia do encontro, não foi amor a primeira vista. Até cogitei outros, menores. Mas é tão esquisito quanto eu. Fica num canto, roendo uma grama seca.
Ainda não sei o que fazer com o tempo mas talvez a lebre de março com relógio me enfie num buraco de fundo mágico quando eu estiver entediada, confundindo sonhos com realidades.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

cenas tristes da vida no centro

Ver um marmanjo, no sentido mais pejorativo da palavra, encostado numa esquina, sob um colete de guarda carros - seria autoestima ou intenção de passar um ar de "otoridade"? - e usando de refúgio a madrugada a preparar um melaço de cola, numa garrafa pet cortada, que ele venderá a uma dúzia de pivetes - no sentido mais cruel da palavra - com menos de 10 anos e na rua por deus sabe que razões.

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O punk

Ouvi seu relato numa noite em que tinha desistido de conhecer pessoas e ouvir histórias. Depois de um tempo viajando e escutando uma língua não materna dá vontade de ficar em silêncio por alguns minutos. Ainda sim, cumprimentei o hippie que veio me vender pulseirinhas e, alegre e simpática pelas taças de vinho mendocino, o convidei para sentar e beber comigo. A atração dele por Bukowski e as tendências anarquistas eram ótimas. Bem longe do roteiro comum que eu ouvira até então. Apresentou-me o punk num momento oportuno, num misto de encontro casual com marcado, concretizado pela certeza que têm aqueles que vivem na rua: vão encontrar os amigos em algum momento, seja numa esquina ou praça.
O punk era jovem, creio que da minha idade, com um sorriso de entorpecido. Chegou falando do andamento das vendas de suas pulseiras e logo foi se abrindo com a convidada brasileira. Ah mano, então você é brasileira, disse me deixando um tanto atônita. A pronúncia era boa. Foi então que seu relato começou. Ele e a esposa haviam passado pouco mais de seis meses em território tupiniquim, carregando a tiracolo o muleque, seu filho de dois anos. Nada de turismo. Eram punks, queriam saber o que tinha depois da tríplice fronteira e só. Chegaram a São Paulo e, puta merda! aquela cidade imensa, que assusta qualquer caboclo. Falava tanta gíria que era impossível não perceber que a rua tinha sido sua casa por mais tempo que o necessário, seja na Argentina ou no Brasil. E contava a mim e ao amigo, que não entendia lhufas de português, suas revelações.
- É tudo lindo lá véio, tudo grande. Todo mundo te dá comida e se você se esforçar um pouco não passa fome que nem aqui. Se num tem trabalho, tem gente boa dando a mão, roupa, calcinhas e leite pro meu piá.
Quando estava bem, alugava um quartinho nos fundos e curtia o marasmo de quem tinha vendido artesanatos suficientes para deitar de cabeça livre na cama.
- Quando acaba a bufunfa (asi que se habla, no?), é só mudar, fazer um corre, umas pulseiras. Até assistência social do governo te ajuda. E manooo, tem frutas de tudo quanto é cor mano, o barato é loco.
Passou de São Paulo até o Mato Grosso e voltou pela fronteira, não sem antes conhecer Trindade, Rio e uns lugares que já nem lembrava mais o nome. Só não usava crack.
- Crack te mata, é loco. Se você usa crack ninguém te dá dinheiro e você fica ali panguando na rua o dia todo. Os cara até fica babando. Num rola. Ah, e hospital é uma bosta também, daí nem vira passar mal né.
Foi embora depois sem eu me dar conta do tempo, do adiantado da hora, de pedir nome e telefone. Eu estava empolgada com a simples liberdade dele e só falei hasta luego e recebi um falo ae em troca.
Falo ae é tipo tchau, mas eu ia embora no dia seguinte. E de fato fui, pensando em que merda eu fazia da minha vida presa numa corrente que ninguém tinha colocado e pensando no quanto esse meu país é esquisito. Deu vontade de viver assim, por um segundo, por esse tal sentimento de liberdade que o punk sequer se importava. Mudei de idéia quando passei mal na madrugada seguinte e recorri a um taxi para me levar ao hospital. Taxi não é coisa de punk, intoxicação alimentar não é coisa de punk e eu vou amargar a vida porque nunca fui punk.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Escrevo por forças de um impulso que diz que o faço mal, mas se não o fizer, não melhorarei.


O café não inspira mais, só doem as têmporas e me faz comprimi-las com os indicadores para evitar uma explosão com miolos manchando o tapete bege do escritório, cor de burro quando foge desbotado.
Esforço-me em acreditar em sentido, em predestinação, em correr atrás e conseguir, mas esbarro no sono sob o lençol quente de manhã. Esbarro nos sonhos sobre o fim do mundo. Tão bonitos, trágicos, com cores incompreensíveis a luz do dia. E o mundo acaba e eu só sinto uma necessidade de dormir mais para saber o depois. E acordo. Merda de despertador. O que vem depois da Terra saindo cinco graus do eixo e dos maremotos e do sol com cor violeta?
Bebo café. Primeira xícara. Estou bem. Passa o dia. Segunda xícara seguida logo da terceira. Estou bem. Meia hora depois, têmporas esmagadas, nuca constantemente apertada com a palma das mãos. Estalos no pescoço. Crec, lado direito, crec crec crec, esquerdo. Relaxante. Vai consumir minhas cartilagens e vou me arrepender disso na velhice.
E o mantra na cabeça, martelando com um toc toc: ninguém lê para assistir ao exercício vernacular do próximo.
Eu sei, mas ninguém lê mesmo que eu o faça diferente.
Professora do caralho, vou me lembrar da crítica sobre conexão entre as frases. Elas nunca se conectam porque eu não penso de maneira linear, eu queria ter dito, mas salvei o recado como exemplo da minha incapacidade textual.
O próximo passo é abandonar o café e recorrer a inspiração pela bebida.