terça-feira, 6 de novembro de 2012

Erastótenes



O mundo está ficando cada vez maior. Apesar de eu me render ao vinho em certas noites, estou me esforçando, querido. Às vezes eu sonho alto demais e acabo acreditando em mim como se eu fosse algo especial, mas na maioria dos dias, ah meu amor, nesses dias eu gostaria de ter você ao meu lado para me expulsar da cama ou ficar nela comigo. 

Mesmo sem você eu levanto, eu continuo, e fico esperando muito de mim e dos semelhantes. Há ainda os dias nos quais eu me conecto ao materialismo. Casas, celulares, roupas, gostaria de ter um pouco menos de questionamentos para me render a tardes de compras sem pensar que isso não abastece a alma. Ou quem sabe fazer novos amigos. Mas nos dias cinza, o discurso nasce pronto e a amizade rotulada. 

Fico repetitiva em dias cinza. Grey, la color de sus ojos. Aposto que nem você sabe que nesses dias seus olhos ficam da cor do mar de inverno. Os meus, como diriam os bons amigos, vão longe, Bianca olhando no horizonte. Mas eu sou medieval e nos dias cinza não questiono o abismo da linha além mar.

Meu mundo está se expandindo, meu amor, e como Erastótenes, eu meço sombras e constato que a terra pode muito bem girar. Quando ela gira eu sei que não posso mais cair, apenas correr para não perder o equilíbrio. Ideias nascem da necessidade, já dizem os sábios populares.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Don't give up on the dream



Quando é a hora de admitir o fracasso? Eu nunca soube, eu sempre continuei no caminho, insistindo nas minhas verdades infundadas e continuando contra qualquer vento. Não sei quando decidi ser assim, não me lembro de ter desistido de uma grande ideia, meus famosos sonhos. Por isso não sei exatamente quando é chegada a hora.

A ansiedade não permite enxergar processo, só o fim. Ela se funda em planos, em querer o que não está perto. Enquanto isso, a vida passa e ainda estamos planejando o que fazer com ela.

Lembro quando eu era adolescente e queria viajar o mundo. Viajando o mundo penso no que farei quando voltar, no que serei após a trajetória e no que levarei na bagagem, entre roupas e memórias. O presente é uma abstração ensinada nas aulas de yoga e meditação, mas tão fluído quanto o ar que corta meu rosto todos os dias de manhã. Eu sinto, ele passa, vai, não o agarrei, apenas foi.

E quando ele for embora, eu só terei o orgulho ou o arrependimento, ou pior, a indiferença. Como saberei a hora de desistir, voltar atrás e achar um novo sonho?

P.S. Sonhos não se encontram, sonhos apenas são.

domingo, 28 de outubro de 2012

Que venham



Os filhos chegam. Um dia, eles chegam. Sem preparo, sem aviso, em meio a cervejas e cigarros. Felicitações e desespero de todos os lados, mas chegam. As contas devem ser mais apertadas para quem tem filhos. Desejo eu jamais tê-los, por mais que inveje os sorrisos sinceros dos pequenos destinados a suas mães. Tão sinceros que jamais poderia tê-los endereçados a mim. Desejo de todo meu coração que todas as crianças colocadas nesse mundo sejam felizes e o arrepio sobe pela minha espinha ao ver notícias, histórias e gritos histéricos de quem não consegue entender seus minúsculos semelhantes.

Crianças são muito mais inteligentes que nós, adultos, seres racionais, pensantes, insuportavelmente donos da razão. Crianças apenas são. São tão pequeninas e admiráveis, que penso que o mundo seria melhor sob seus pontos de vista sinceros. O mundo é nítido sob seus olhares, não sob os nossos, treinados e manipulados.

Que venham mais crianças, que sejam felizes, riam e apontem dedos em todas as direções questionando os motivos da existência. Que treinem seus adultos e os façam melhores. 

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Escrevo melhor de coração apertado.




Eu vou ficar bem, querido. Vou sorrir para todo mundo como sempre fiz, virar mais essa cerveja, levantar a cabeça e fingir que está tudo bem. Eu sempre acabo acreditando nos meus ímpetos de felicidade. Vai ficar tudo bem. Mesmo quando eu não achar uma casa para morar, um emprego descente para vender minha capacidade mental, nem realizar os sonhos perfeitos que criei na quinta dimensão. Até mesmo quando eu precisar dormir num canto mais empoeirado que meu cinzeiro eu vou levantar a cabeça, mexer o cabelo para o lado esquerdo, passar maquiagem, talvez um batom vermelho, e sair na rua. Mesmo quando eu não tiver fumaça para inalar. Tudo vai ficar bem, mesmo quando meus estados de consciência estiverem em seu devido lugar. Falta de hábito. Posso ser mais inteligente do que eu acredito. Posso morar do outro lado do mar, posso sobreviver a temperaturas negativas e até me divertir ao ver meus dedos ficarem com as pontas roxas. Eu sei que estou viva. Eu posso até chorar querido, eu sempre choro, você lembra? Eu posso até sentir dor nos ossos de saudades, mas eu posso virar mais uma cerveja e dar risada olhando fotos sob a luz do abajur mofado do quarto. Devia trocar a cúpula. Devia trocar alguns amigos também, eles me desanimam às vezes. Querido, vou ficar bem. Vou ali na esquina com algumas moedas para comprar mais cerveja. Já volto.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

C.F.Abreu

"(...)Claro que você não tem culpa, coração, caímos exatamente na mesma ratoeira, a única diferença é que você pensa que pode escapar, e eu quero chafurdar na dor deste ferro enfiado fundo na minha garganta seca que só umedece com vodka, me passa o cigarro, não, não estou desesperada, não mais do que sempre estive, nothing special, baby, não estou louca nem bêbada, estou é lúcida pra caralho e sei claramente que não tenho nenhuma saída, ah não se preocupe, meu bem, depois que você sair tomo banho frio, leite quente com mel de eucalipto, gin-seng e lexotan,depois deito, depois durmo, depois acordo e passo uma semana a ban-chá e arroz integral, absolutamente santa, absolutamente pura, absolutamente limpa, depois tomo outro porre, cheiro cinco gramas, bato o carro numa esquina ou ligo para o CVV às quatro da madrugada e alugo a cabeça dum panaca qualquer choramingando coisas do tipo preciso-tanto-de-uma-razão-para-viver-e-sei-que-esta-razão-só-está-dentro-de-mim-bababá-bababá, até o sol pintar atrás daqueles edifícios, não vou tomar nenhuma medida drástica, a não ser continuar, tem coisa mais destrutiva que insistir sem fé nenhuma?”

ansiedade

Ah, a ansiedade. Nos dá presentes, viagens, dinheiro, reconhecimento, amores.
Quando chega a hora é diferente. É como pedido de namoro na adolescÊncia. Você imaginou
uma caixinha com aliança e jantar a luz de velas, mas aceitou o pedido acanhado ao sair da escola.

trecho de livro #parte2

O soluço anunciou a crise. Longe, na outra ponta da linha, Sofia soube que o marido entrara na semana de reclusão. Sentiria-se triste, fraco e acordar perderia o sentido momentaneamente. Às vezes durava mais, às vezes menos, mas o certo era que Sofia veria sua incapacidade de alegrar o marido desenhar a convivência cotidiana. Nem o toque, o sexo ou o café da manhã agradariam.
- Mãe, ele ficou estranho de novo.
- Tenha paciência, minha filha.
- Eu tenho, mãe, eu tenho...

Vicente coçou a cabeça.
-Preciso me pentear, disse para o espelho.
Era inevitável e recorrente, mas Vicente careceia da motivação juvenil, da ânsia lhe subindo a garganta. Hoje, o brilho nos olhos e o apreço pela vida duram menos. A empolgação não passa de um sopro curto para apagar vela. Naquela manhã serviu para que penteasse o cabelo.
- Eu poderia ser mais. Minha pior escolha foi a mediocridade.
Apanhou o barbeador elétrico. Nada mais havia a fazer.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

trecho de livro #parte1

Plam, plam, plam.
Um barulho seco ecoava pelo vão entre os prédios e entrava de janela em janela, causando um alvoroço tremendo. Cada um, a sua maneira, protestava contra o martelar incessante do oitavo andar. Eu botei uma música, a maioria fechou as janelas (ou estariam fora trabalhando?) e havia outros que devolviam o estardalhaço com marretas e furadeiras. Atitude incompreensível. Transformou-se numa sinfonia caótica, retumbando no centro da cidade.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

lebre de março

Passei os últimos sete dias, ou mais, repetindo a infantil frase “eu quero um coelho”. Meu namorado, com uma paciência invejável, me distraia. Ainda assim, engravidei de um coelho. Criei expectativas dignas de uma gestante, que se emociona e planeja e fala e não muda de assunto .
Percebi que estar a maior parte de meus dias sozinha, em silêncio, estava me deprimindo. Uma nova depressão. Ao contrário da antiga, agora o tempo era lento e eu ainda não aprendera a organizá-lo. Precisei de distração, algo que exigisse atenção constante. Algo vivo. Só um ser vivo e nada mais importa. Barulho. No dia do encontro, não foi amor a primeira vista. Até cogitei outros, menores. Mas é tão esquisito quanto eu. Fica num canto, roendo uma grama seca.
Ainda não sei o que fazer com o tempo mas talvez a lebre de março com relógio me enfie num buraco de fundo mágico quando eu estiver entediada, confundindo sonhos com realidades.