quarta-feira, 25 de agosto de 2010

do injusto tempo


- Ah, éramos tão jovens... –  suspirou olhando a foto.
(a imagem em questão havia sido tirada há poucos meses)

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

.amores.amoras.

quando eu chegar, saiam correndo, como sempre fazem. não é de medo, eu sei, é para mostrar todas as coisas que vocês descobriram nesse pouco tempo de mundo. depois, me deem o beijo que eu vou pedir. e sentem-se no meu colo, uma de cada lado, porque para vocês, minhas pernas tem estrutura de aço e jamais deixarão de servir de colo, mesmo quando estiverem grandes. chorem. briguem. mas não se esqueçam de me dar sorrisos. não qualquer um. o sorriso de cada uma. com aquele ar de que nada mais importa senão sorrir. e pulem. e corram. e façam graça para que eu olhe. eu vou olhar, porque nada mais sei fazer senão olhá-las. e tentem falar que me amam, porque isso eu levo no meu coração quando estou longe. e não fiquem com cara de quem não sabe o que fazer quando eu for embora. eu volto. sempre voltarei.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

live Together, die Alone


As escolhas não impedem o ciclo da vida. As mortes não se abalam com os nascimentos, e estes continuam obstinadamente, como que contrariando o fluxo que insiste em ruir e parecer ruim. Mas ainda hoje se nasce. E se morre. Segundo teóricos, morre-se menos que antigamente, mas ainda nos dias cinza não deixo de achar que a morte paira como que marcando presença para não nos esquecermos dela. E a vida chega, teimosa como de costume. E continuamos onde estamos, porque não sabemos ser muito senão nós mesmos, nessa intensidade solitária que nos espreme entre um caminho calmo e outro, que talvez nos dê a resposta de todos os tempos.

O dia quando.

É quando a eminência de um dia cinza aperta o peito antes mesmo de o sol sair e corrói o sorriso de ontem transformando-o em expressão semanal de quem nada vê de vantajoso em sair da cama. É o aperto de correr a mão a procurar em vão seu corpo em meio aos cobertores. É a mentira no espelho garantindo que o hoje será melhor que ontem e enquadrando um sorriso no rosto pálido de cera, conseguido em longas noites insones. É a necessidade de sair só para manter-se vivo. É quando o jogo anuncia a perda tão logo o jogador se prostra diante do tabuleiro. É o guardar e guardar até transbordar de sinceridade.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

quarta-feira, 21 de julho de 2010

o banheiro.

Era gorda. Quase disforme. Dessas pessoas que deixam sempre em sua mesa, perto do monitor do computador, alguma guloseima, devorada ansiosamente após o almoço. Nesse corpo estranho sustentava uma cabeça que até combinava, mas que exibia uma aura de tristeza internalizada.
De uns tempos para cá se sentia melhor, mais feliz. Abriram um banheiro no corredor perto de sua baia de trabalho. Agora não caminhava até o outro lado para usar um banheiro coletivo. Esse não, esse era pequeno, com uma única cabine que respeitava sua privacidade e não a ofendia tanto quanto o outro, coletivo, cheio, com meninas a circular incessantemente. Esse era bom. Mas ainda a incomodava o cheiro. Aquele odor que só o banheiro consegue captar, destacando para o próximo que entra algo que o anterior gostaria de manter em sigilo. Mas não era pelo simples incômodo. Era a sensação assustadora de que o outro era melhor. Seus odores mais aceitáveis que os dela. Enquanto ela saía do banheiro quase que tentando se esconder para não pensarem que aquele cheiro ruim era dela. E achavam. Era ela a primeira citada nas piadas escatológicas. Era ela a culpada pelo odor que se acumulava ao longo do dia e quase invadia o andar ao final da tarde.
Um dia calmoçou comida nordestina. Sofreu remoendo o alimento no estômago, com a sensação de que ele empurrava o mundo até seus intestinos a fazia ter cólicas. Foi ao banheiro, ao pequeno. Ao sair, tentando o disfarce constante, pôs-se em silêncio, tanto que pode ouvir o que se falava atrás da porta. As reclamações eram de quem passava indagando-se sobre o aroma fétido daquele ambiente. Se saísse, saberiam que era ela. Não saiu. Tentava. Colocava a mão na fechadura. Mas não saiu.
O aviso de interditado na segunda só fez incomodar as demais pessoas, que em seu incômodo não notaram que a barra de chocolate branco comprada na sexta, aquela sexta em que foi servida a comida nordestina, não havia sido comida.

segunda-feira, 19 de julho de 2010

prelúdio

- Mas eu amaria de verdade se quisesse ficar?
- Não. E você seria infeliz.

nem todos os amores esperam.

E se eu fosse embora, tu esperarias? Diria a todos que sentes minha falta e entrarias em reclusão para aguardar meu retorno? E se não tivesse retorno? Sofrerias? Não sabes. Não saberás até que eu parta. Não faças promessas infundadas sobre um amanhã que nem tu nem eu sabemos o rumo. Não te apeteças de antecipar teus sentimentos. Nem os meus. Eu voltaria um dia? 
 tu não voltarias em meu lugar.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Eu estava com medo de não te encontrar

A perda era inevitável. Sabia disso desde o primeiro olhar. Era um amor impossível que ela tornara possível assim como fizera com tudo o que muito quis em sua vida. Ainda assim, sabia que o perderia um dia. Que fossem anos luz depois, em suas velhices. Que fosse ainda na juventude, perdendo para outrem. Essa idéia dolorida não era das mais agradáveis, então, desanuviava seu pensamento e olhava os olhos verdes, por vezes escondidos sob as pálpebras preguiçosas daquele que os guardava. E se esquecia de sentir medo. Pois este, o medo, apenas trocara de lugar. Deixara de ser o medo dos culpados - que mantivera em tempos passados - para o medo dos que não suportam perder.

terça-feira, 29 de junho de 2010

senhora do destino (desconectividades # 5)


As coisas não duram, disse ela com a mesma naturalidade com que pedia o chá mate na lanchonete todos os dias. Tentando compreendê-la, o homem pôs-se a ligar passado com presente com perguntas sem resposta com respostas para quaisquer perguntas.
Nada alterou seu pensamento. Ela continuava a pensar na não durabilidade das coisas, ainda sem saber por que insistia em ter tudo a sua volta para sempre, forçando-se a relações estagnadas e com medo de perder aquilo que não fazia questão de manter presente enquanto se esforçava para não destruir o que realmente queria por perto.
Se pudesse descobrir o fim, seria mais simples e tudo planejado. Não, querida, essa é a parte legal da vida, a gente não sabe quando tudo vai acabar. Mas ela sabia... Ela sempre sabia.