sexta-feira, 21 de maio de 2010

diálogos bipolares

- Eu te amo, mas sabe, tem alguma coisa...
- Que coisa?
- Você. Sua existência me incomoda.
- ...
- Sabe, não consigo gostar do seu jeito, das suas coisas. Eu só amo, mas não tem nada que me prenda a esse amor. Tudo em você é dispensável.
O menino levantou, bateu a porta de casa e ficou sentado na escada. Quase não piscava enquanto esperava o elevador.
Ela abriu a porta. Olhou. Fechou.
Abriu novamente.
- Não quer ficar para jantar e ver a novela? Um filme talvez?
O elevador apitou e ela assistiu a mais uma tela quente sozinha, sem entender porque ele tinha ido.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

os males do sonhar

Gritou, como se o grito expulsasse o medo do corpo. Procurou-o na cama e não o encontrou. Entre o estado de inconsciência causado pelo sono e o acordar definitivo rememorou o que se passara. Eram personagens de uma história já contada em muitas versões. História de final conhecido sobre o fim. Passara-se certo tempo até que pudesse ver além de suas lembranças do que acontecera. Eram felizes, só sabia disso. Eram bonitos como uma foto dessas onde o olhar brilha estrategicamente posicionado sob um raio de sol. Nunca vira sorriso igual. Eram parte de uma coisa única a ser dividida tragicamente numas das tardes perfeitas que passavam ignorando a presença do mundo. E nesse ignorar foram percebidos e repelidos. Não alegravam a ninguém, somente a si próprios e isso não era bom. Existiria palavra para falar de um ódio maior que o ódio? - perguntava ela à criatura em sua cabeça. Não importa, é por sentimento assim que você está aqui.
E ela se viu novamente, gritando. Em camera lenta acordou, olhando-o enquanto voltava ao quarto. Ele estava ali. Estaria sempre. Era só não sonhar novamente e tudo estaria em seu devido lugar.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

cotidianos (desconectividades #3)

O chacoalhar do ônibus a enjoava. Por que, deus, tinha que tremer tanto? Por que as pessoas mascam chiclete de tutti-frutti e deixam o cheiro dominar o ambiente? Ao menos não era o cheiro da lasanha queimada no forno, pensou, lembrando do incidente da noite anterior. Tinha uma náusea que, se pudesse comer o universo para o despejar na pia, comia-o. E comeu. E despejou na pobre pia, sua amiga de longa data que não a agüentava mais debruçada sobre a torneira pedindo aos céus que lhe mandassem um organismo menos lesado pelos malefícios do tempo.
Que mal lhe pergunte, você está passando bem, perguntou a moça da entrada quando ela chegou com óculos escuros, mesmo sabendo que não estava claro para tanto. Eu? Estou ótima. E voltou-se para a entrada do banheiro, enfrentando o fundo da privada como se fosse um embate para manter sua dignidade.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

de amores improváveis

Colocou-se novamente sob seu controle, menos pálida e fraca agora. O medo dissipara-se em dias que preferia não contar e que passaram rápido como sonho. Passavam ainda, corrigiu o pensamento. E passavam muito bem. Quase sem que percebessem que o mundo se fechara para que nada lhes afetasse. Agora conseguia olhá-lo por mais tempo sem temer revelar-lhe segredos. Foram felizes desde aquele dia no passado e assim ainda eram. Dali até o tempo perder-se de vista.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

delírios (desconectividades #2)

Foi ao fundo pensando subir por toda a imensidão quando ocorreu que não eram os melhores degraus a descer quando se olha para cima. Pôs-se no caminho a mirar a janela enquanto o mundo andava de costas. Ou seria ela? Que seja - pensou fazendo bolhas de sabão imaginárias - se eu virar, o mundo vira também, então estaremos ambos andando pelo lado contrário. Saiu a correr de um vento que insistia em ventar em suas bolhas e levá-las para o alto. Existe uma palavra para quando queremos lembrar alguém que já foi e que não conhecemos? E chegando onde não lembrava porque estava indo, decidiu que voltar seria melhor que sentar e cantar enquanto a lua deixava o sol de lado para brilhar num cantinho escuro do mundo claro que ela viu quando acordou. Existe uma palavra para aquelas pessoas que deixamos para trás porque não nos serviam mais? Chegou onde desceu para subir e, entediada, voou com um balão para fora da janela levando com ele a casa e as roupas dela. Olhando-o enquanto vinha em sua direção, pensou que era a palavra que procurara pelo vento e como não chegara a tanto, retornou. Existe uma palavra para saber que escolhas foram certas ou erradas? Existe querida, chama vida.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

foi que não foi e desistiu (desconectividades #1)

Viu-se num mundo paralelo desenhando sobre a poeira do vidro da janela da sala o destino que traçaria para os anos que já se foram. Para os que viriam, desenharia na espuma de detergente na pia da cozinha. Dali sairia para uma eternidade fadada a um fim de morte sem que lhe explicassem a causa. Morreria de amor era sabido pela cigana que lhe pegou a mão naquela tarde sem que percebesse. De amor morreriam todos aqueles que num mundo paralelo se quedassem a entender este em que vivemos, disse aquela que com roupas coloridas viu passar a moça a qual leria o futuro mentalmente. De medo de um fim da tarde desamado previsto previamente quedou-se a procurar abrigo dentro das gotas que caíam do céu anunciando a nova chuva de verãooutonoinvernal que se perpetuava na cidade sem clima definido para a qual migrara no futuro do pretérito. Dentro do sereno viu numa escala calendoscópica o mundo que paralelamente criara e pôs-se novamente em uma dimensão colorida à multicores que iluminava a sala já cheia de luz que insistiam em se acender ao amanhecer. Amanheceu-se então. Anoiteceu-se logo em seguida, assustada com a previsão de futuro sem futuro na qual insistiria em existir dia e noite, noite e dia, num espaço sem fim de uma linha de poeira sobre a janela.

quinta-feira, 25 de março de 2010

desconexos

Perdia-se entre pernas e braços e beijos. Amava aquele corpo como se fosse seu, em verdade, até mais que o seu próprio. A palidez era tanta que o invejava. Sem contar a magreza perfeita. Amavam-se além do natural. Queriam ter o corpo um do outro para si. Transcendiam a busca pelo prazer, como se quisessem fazer parte do outro. Amavam-se, fato, mas desejavam-se mais que tudo.
A ela, bastava morrer enquanto o tivesse. E que morressem, se assim lhe permitissem a vida. A ele, que pudessem passar a eternidade emaranhados como se não houvesse nada além da cama e de seus corpos. E não havia. Era apenas isso que lhes importava verdadeiramente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Das perdas e dos danos


Perdia muitas coisas. Desde os grampos para prender o cabelo, que desapareciam na média de dois por dia, até os textos que escrevia (que os perdia intencionalmente quando necessário). Também perdia os amores como os grampos. Desamava um por dia. E amava novamente quando lhe convinha. Mas normalmente não convinha, então desamava e deixava-se sentir bem por isso.
Era cruel, sabia, mas perdia por sobrevivência. Perdia porque não cabiam em seu pequenino coração. Nesse, o coração, só cabia o necessário e o necessário não lhe bastava. Foi quando deixou de se amar para liberar espaço aos outros. Passou a amar mais para fora que para dentro. E isso não deixou de ser cruel...

segunda-feira, 1 de março de 2010

I'm human and I need to be loved


Estava a tanto tempo engasgada com as palavras que, quando conseguiu dizê-las, adoeceu. Não sabia amar, nunca se dera ao trabalho. E quando disse que amava, em resposta a declaração matinal do namorado, soube que perdera todas as forças. Dera a ele tudo o que tinha para si. Não se amava mais. Não tinha amor suficiente para os dois. Odiou-se logo que o viu sair pela porta de manhã, levando consigo o que fora dela por tanto tempo. Deixou-a na cama, relegada a um corpo que também não lhe pertencia mais.
Queria o amor de volta, então tentou negar. Mas já não estava ali. E ela conhecia o poder das palavras bem o suficiente para saber que destroçara seu coração ao amar outrem.
Antes fosse o corpo, pensou ela. Mas sabia que nunca tivera domínio sobre o seu próprio corpo e que dar-lhe a alguém em nada lhe afetava. Emudeceu ao longo do dia.
Maquinava em sua cabeça formas de roubar um amor para si. Pegar outro coração que pudesse suprir a necessidade de afeto. Não tinha. O namorado tinha apego o bastante para os dois e mais cinco gerações, mas não lhe bastava.
Então o que fazer? Nada lhe dava vontade. Perdeu o apetite. Perdeu o sorriso. Voltou para casa, abraçou o ursinho que lhe acompanhava desde a infância com força o suficiente para mantê-la sufocada. E assim o fez até o momento que conseguiu destroçar o bicho, tirando dele o amor que pensava ter depositado em tantas noites de abraços sonolentos. Percebendo que a espuma não tinha vida, resolveu arrancar o próprio coração na busca cega por algo que pulsasse e lhe desse a sensação de estar viva. Adormeceu sem perceber que perdera também a capacidade de receber o amor alheio.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

inversão

Saiu do papel de superioridade que exibia desde sempre para cair bem fundo, lá embaixo de onde estava acostumada a ficar. Era triste. Triste não, melancólico e insólito.
Não sabia se encaixar nesse papel de verdade. Fingira por vezes o sofrimento daqueles que morrem de amor, mas não sabia o que era isso desde o distante dia em que colocou o coração numa redoma de gelo. E agora sentia que lá estava, no fundo, sem poder contar a ninguém. Sem poder chorar – porque não sabia, não por falta de vontade.
Nesse lugar ele a deixou. E foi embora, sentindo-se superior em sobrepor-se aquela que o redimia a um mero adereço. Olhou de cima, sem expressão alguma e foi.