quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

74 dias com ele (ou Mentiras Convenientes)

Custaram 74 dias para que ela se decidisse. Optou pelo fim.
Os pesadelos a consumiram nesse tempo. Não podia mais dormir. Nem sozinha, nem com ele ao lado. Sentia dores, náuseas, súbitas vontades de ficar em silêncio.
Era culpa, diziam os mais puritanos. Ela sabia que era culpa, mas não a culpa pelo erro inicial, aquele que cometera numa manhã de sábado há 74 dias. Era culpa por enganar a si própria.
Nesse tempo, perdera o medo de olhar as pessoas nos olhos. Aprendera a mentir para elas. Fingia amar e fingia não amar, quando era necessário.
Mas conhecia seu coração. E sabia que dentro dele tudo corria o risco de morrer. Um dia, pensou que os habitantes de seu coração se suicidavam. Afinal, como poderiam viver num lugar tão sombrio?
Diante do medo de mais uma morte, optou pelo fim.
Ele argumentou. Ela mentiu mais. Desligou o telefone e quis ser engolida pelo silêncio.
Achou que dormiria nessa noite. Teve mais pesadelos. Mas amanheceu e ela agradeceu pela claridade que embalaria alguns minutos de sono. Era somente de dia que podia dormir. Tinha medo do escuro.
Também pensou que o peso da culpa sumiria. E ao longo do dia sentiu todo o mundo perder a graça. Mentiu para si mesma de novo.
Quis apagar os 74 dias. Não quis também. Olhou as fotos bonitas do fim-de-semana anterior e se odiou por mentir.
Pediu em segredo aos deuses que lhe concedessem uma noite de sono calmo, num lugar onde ninguém poderia lhe condenar por nada - nem mesmo ela própria. Sem acreditar em deuses ou anjos e muito menos na verdades vertidas para ele ao telefone, sentiu-se adormecendo.

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