Logo depois de se aventurar sob uma chuva torrencial, percebeu que não queria ser.
Despida de todo o resto de beleza que lhe restara, se olhava no reflexo das vitrines e se odiava por ter o cabelo desgrenhado, a pele pálida e o corpo fora do padrão.
Não lhe importava quantos olhares arrastasse enquanto caminhava torpe pelas poças de água que aumentavam a casa minuto: ela estava desapaixonada.
E desse mal sofria a cada mudança no ciclo lunar. Eram os dias amarelos e quentes que lhe tiravam a paixão, lhe davam um tom estranho a cor dos olhos e dos cabelos e estragavam a combinação de suas roupas.
Estava particularmente irritada naquela tarde. Seu humor de noite bem dormida logo fora destruído pela irritação visível com o guarda-chuva quebrado.
Tentou, riu, mas logo jogou fora aquela porcaria azul que de nada protegia. Mas enquanto caminhava sentiu falta da cobertura que há pouco escondia levemente seu rosto. Agora estava ali, feito uma criatura de gesso se desfazendo. Fugia dos olhares e tentou se refugiar dentro de sua fértil imaginação.
Quando o ônibus jogou água na única parte seca de sua roupa, voltou a vida real.
Chegou em casa e amargou suas escolhas.
Por que não casara cedo? Por que deixara a família longe e se refugiara numa cidade hostil? Por que insistia nessa vida sombria?
Era tão difícil entrar no padrão.
No dia seguinte, quando logo cedo percebeu que não era agraciada pelo bom gosto no vestuário e quem dirá pelas qualidades estéticas, pensou em desistir.
E para onde iria? O mundo bem melhor que a mãe cantou em músicas de ninar na infância não existia ainda.
Tudo o que restava era esse lugarejo quente e provinciano, que alternava entre chuvas sem fim e dores de alma.
Pacientemente, esperaria a próxima virada da lua, quando então o que queria dentro de algum olhar apaixonado refletido no espelho.
Esperaria a próxima chuva lavar a alma e só então ousaria olhar para o alto e buscar algo para apaixonar-se.
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