quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O não-filho

Acordou num sobressalto. Olhou os seios descobertos para conferir que ainda lhe pertenciam.
Aquela imagem do sonho lhe causava arrepios. Como uma criatura pequena poderia se alimentar de seu leite? Como um ser conseguiria sobreviver as custas de um líquido envenenado pela vida?
Mesmo sendo um sonho, sabia que não poderia cuidar da criança. Ela não lhe pertencia. Era sua, isso sabia. Mas não queria tê-la.
Sofreu por saber que não poderia ser mãe. A natureza não a tinha agraciado com os dons da maternidade. Os homens sabiam disso. Era como a lenda das Amazonas. Ela era a típica guerreira, porém, de ventre seco.
Depois de um tempo os homens fugiam. O relacionamento não evoluía. Seria para sempre a guerreira que os homens temem por não saberem subjugar.
E nesse sonho tinha certeza disso. O filho, que tentava alimentar com muito esforço, seria arrancado, dado a outra mulher com mais amor de alma.
Não tinha um pai. O sonho não mostrara. Se ele existisse, não seria tão pesaroso. Seria apenas o fim previsível de muitas mulheres.
Era por isso que ela não podia tê-los, os filhos. Imaginava-os como fins. Não eram começo de nada. Era fim da vida, da beleza, do domínio de seu próprio corpo. Seus seios não seriam seus, mas sim serviriam de alimento.
Seu ventre seria revolvido por nove meses, nos quais seria infeliz. E depois, nem o filho seria seu. Assim como não fora de sua mãe.
Deixou o sonho ruim de lado. Garantiu que ainda tinha seu corpo intacto. Durante aquele dia, evitou olhar as barrigas das grávidas que circulavam e se multiplicavam a sua volta.

3 comentários:

marc. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marc. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
marc. disse...

cho q só li seu blog qdo adicionei, confesso hahah =P
e me arrependi agora tbm hahaha suas frases me causaram uns curtas na cabeça hahah fiquei imaginando tudo... gostei! vou ler mais =)