Estava sentada na mureta. Balançava as pernas no ar. Ela era pequena, não alcançava o chão quando se sentava ali. Eu a olhava pelo reflexo do vidro que dividia o jardim, com mais indiscrição do que gostaria. Ela sabia que eu a via, mas disfarçava, sorria para os amigos que estavam perto e acenava para os que passavam.
Tinha um sorriso tão fingido que me irritava. Era por isso que a olhava. Ela sorria e todos aceitavam, menos eu. Sabia que sorria de mentira. Sabia pelo brilho do seu olhar.
Ela não olhava nos olhos, mirava as sobrancelhas dos interlocutores. Era um truque, eu conseguia ver isso nitidamente através do reflexo. Eles não. Sorriam com ela.
Vez ou outra, ela coloca a mão sobre a testa, para proteger os olhos de algum raio de sol inconveniente. Gestos pensados. Todos. O estralar dos dedos, o chacoalhar dos pés.
A raiva me consumia tarde após tarde, enquanto eu acendia um cigarro após os outros e cerrava os olhos para olhar aquela menina com jeito de menina que nunca cresceria.
Eu não me arriscaria. Ela, quem dirá, eu era mais um na multidão de acenos.
Mas numa tarde indiscreta me arrisquei mais que o sol e cruzei o olhar pelo espelho. Corou tão discretamente que só eu percebi. Maldita. Apaguei o terceiro cigarro e subi pelas escadas, evitando o reflexo na porta do elevador. Sabia que ela coraria novamente.
Um comentário:
Uns fingem que não reparam. Outros reparam... e fingem que não.
Gostei, sabes?
Fica bem.
Rolando
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