segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

vodu

Disse-lhe que tomasse pílulas de 500 miligramas de remédio duas vezes ao dia. Ela não conhecia dosagens, mas imaginava que isso seria o suficiente para esquecer a dor por alguns momentos.
Há dias tinha a impressão que lhe enfiavam agulhas na cabeça, por vezes pensou que eram bigornas caindo do teto. Sob a luz ameaçadora do consultório, disse que tudo bem.
Observava as pessoas a sua volta enquanto aguardava sua vez de receber a divina dose que acabaria com os males daquela manhã. Era mais forte que as 500 miligramas que tomaria nos próximos dias. Esperava ansiosamente sua vez enquanto observava uma mulher branca, pálida, sofrer com espasmos involuntários e calafrios ao seu lado e mais adiante um rapaz que acompanhava desde a recepção. Seu rosto se anuviava cada vez que a dose descia com mais força e entrava em seu braço. O rapaz fechava os olhos, como se de algo adiantasse.
- Senhora, sua vez – chamou o enfermeiro.
Ela fechou os olhos, mas tinha uma atração inexplicável por agulhas entrando em sua veia. Antes fossem drogas, pensava em segredo.
- Vai ser rápido, você vai ver.
Que seja. Em menos de um minuto sentiu o corpo amortecer e agradeceu aos homens pela capacidade divina de criar remédios sintéticos.
O marido da mulher pálida enfiava a cabeça pela porta a cada minuto e o olhar preocupado lhe deu um tanto de inveja.
Saiu. Olhou o sol. E conseguiu olhar sem dor pela primeira vez em cinco dias.
- Malditos fazedores de vodu! Deviam ao menos me poupar o sono.
Foi para casa cambaleante. Desejando nunca mais voltar naquele lugar cheirando a álcool e lembrava tempos remotos que sua memória queria esquecer.
Eu devia aprender a preparar as doses eu mesma, assim aliviaria a dor sem abandonar o conforto do sofá.
A ideia do vodu tomava sua cabeça enquanto a dor ia sendo deixada de lado. Mas por que me quereriam tanto sofrimento?
Ah sim, por conta do amor sofrido. Mas só por isso?
Malditos fazedores de vodu...

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