segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

ódios, textos e coisas que eu queria te dizer e não sei

Estava no meio de um texto quando resolveu descontar seu ódio acumulado em alguém que não o entenderia e nem o receberia como se deve.
Inconformada com o ódio que não fora devolvido em dobro, mas que havia sido reduzido a pó e chegado para devolução na forma de silêncio, ela voltou ao texto (já que o trabalho lhe contentava por também odiá-la).
Deparou-se com a frase “Esse diálogo entre as partes...”. Quase riu com a ironia. De que diálogo falava se sequer sabia travar um como adulto racional?
Agiu como agia aos seus cinco anos de idade - satirizando as pessoas com suas palavras prematuramente cortantes e ácidas. Criatura infeliz que não sabia fazer nada além de vomitar emoções mal construídas no seu estômago.
Direcionou a atenção para o parágrafo seguinte, quem sabe o texto lhe ensinasse a travar o tal “diálogo entre as partes”. Ele fugia as suas intenções. E ela teve certeza que aquele texto lhe odiava tanto quanto ela odiava o fato de ter que o fazer para outro que não o amaria como deveria ser amado. Os textos, seus filhos, devolviam o ódio que ela dava ao mundo sem saber por que.
Antes pudesse se expressar de maneira clara e concisa por meio deles, como lhe fora ensinado nos cursos de redação ao longo de toda uma vida.

Sleeping with ghosts


Acordou no meio da noite, assustada como de costume. Com um sobressalto percebeu que ele não estava mais lá. Chacoalhou-se entre os lençóis tentando achar algum vestígio, mas ele se fora.
Das muitas horas que faltavam para que o dia chegasse, dormiu apenas duas. E dividiu o sono entre pesadelos e calores insuportáveis que a lembravam o quanto detestava ser filha de uma terra tropical.
Quando desistiu de dormir, se deu o privilégio de esperar o dia amanhecer entre pensamentos soltos e uma xícara de café. De tanto pensar, percebeu que ele não tinha ido embora. Na verdade, nunca estivera ali. Era fruto da sua gigantesca imaginação.
Nunca a amara, nem nunca tinha sido amado por ela. Jamais dividiram juntos aquelas xícara de café nem o cinzeiro. Jamais tinham sorrido ao se olharem durante o sono.
Ficou feliz por isso. A não existência lhe dava paz. Não amava e, sendo assim, não tinha com o que se preocupar ao acordar no meio da noite com a cama vazia.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

alice no espelho.

“Minha maior frustração é nunca ter tido uma bicicleta”, disse o moço de camisa regata preta sentado na ergométrica ao seu lado.
Saiu do transe e teve que reparar no rapaz que havia chegado há cerca de dez minutos. Nele e em todas as outras quinze pessoas que se dispunham em um semi-círculo diante do enorme espelho que adornava o espaço.
Odiava aquele espelho. A luz lhe dava dores de cabeça, os reflexos dos homens musculosos olhando para si próprios a enojava. Mas estava lá, diante daquele vidro brilhante. Propôs-se a correr no ritmo da música estridente que pulsava das caixas de som pregadas estrategicamente pelos cantos.
Pensou no que o rapaz disse e lembrou-se de como gostava de sua bicicleta inseparável de muitos anos antes. Corria para ela toda vez que queria fugir do mundo. E fugia todos os dias. Pequenina, rumo ao sol. Pedalando até não poder mais. Gostava das lágrimas de ódio que se misturavam ao seu cabelo emaranhado pelo vento. Gostava do vento, do silêncio que ele produzia enquanto ela ignorava as buzinas dos caminhoneiros na estrada.
Continuou correndo. O instrutor alternava os berros entre palavras de motivação e de desprezo por aquelas pessoas que pedalavam frustradas sem sair do lugar.
Seu rosto ficava insuportavelmente vermelho e o pé doía como já doera nos anos passados. Mas não sentia o vento. Era só o ar seco vindo do ar condicionado que lhe roubava o pouco da umidade na garganta e lhe obrigava a pedir água para o rapaz ao seu lado. Agradeceu a generosidade das pessoas ao notar um momento de desespero.
Abaixou a cabeça. Não podia mais olhar para aquele rosto querendo chorar e jogar seu ódio pelo mundo sendo frustrado a cada pedalada diante de um espelho sem vida. Corria desesperadamente, até achar que suas pernas sairiam do lugar. Dispensou-se em raivas por estar ali e por saber que nenhum dos quinze entenderia sua necessidade de correr para fora.
Desfez-se de seu suor e amargou a tristeza de não poder mais voltar aos anos felizes na estradinha do pôr do sol.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Where you’ll find me

Aquietaram-se no sofá diante da janela para olhar a chuva cair. Na delicada embriaguez do corpo esperavam as gotas cair lentas o suficiente para pegá-las.
O dia estava tão vagaroso que se podiam se mover no tempo, sem que nada os percebesse. Eram felizes, tanto e tanto que o medo lhes dominava silenciosamente. Não falavam sobre ele, mas sabiam que o sentimento era mútuo. Ela cantarolava músicas de romance e ele divagava sobre as possíveis datas para terem se conhecido e sobre as chances de evitar aquele romance tempestuoso.
Diante dos muitos dias que se passaram com a chuva, souberam que não poderiam ser – nem dessa forma, nem de outra. Eram aquilo. Sem muita idéia do que seriam dali em diante. Nada além de ficar olhando a chuva cair pela janela.
...

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

she's a little lost girl

Estava sentada na mureta. Balançava as pernas no ar. Ela era pequena, não alcançava o chão quando se sentava ali. Eu a olhava pelo reflexo do vidro que dividia o jardim, com mais indiscrição do que gostaria. Ela sabia que eu a via, mas disfarçava, sorria para os amigos que estavam perto e acenava para os que passavam.
Tinha um sorriso tão fingido que me irritava. Era por isso que a olhava. Ela sorria e todos aceitavam, menos eu. Sabia que sorria de mentira. Sabia pelo brilho do seu olhar.
Ela não olhava nos olhos, mirava as sobrancelhas dos interlocutores. Era um truque, eu conseguia ver isso nitidamente através do reflexo. Eles não. Sorriam com ela.
Vez ou outra, ela coloca a mão sobre a testa, para proteger os olhos de algum raio de sol inconveniente. Gestos pensados. Todos. O estralar dos dedos, o chacoalhar dos pés.
A raiva me consumia tarde após tarde, enquanto eu acendia um cigarro após os outros e cerrava os olhos para olhar aquela menina com jeito de menina que nunca cresceria.
Eu não me arriscaria. Ela, quem dirá, eu era mais um na multidão de acenos.
Mas numa tarde indiscreta me arrisquei mais que o sol e cruzei o olhar pelo espelho. Corou tão discretamente que só eu percebi. Maldita. Apaguei o terceiro cigarro e subi pelas escadas, evitando o reflexo na porta do elevador. Sabia que ela coraria novamente.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

vodu

Disse-lhe que tomasse pílulas de 500 miligramas de remédio duas vezes ao dia. Ela não conhecia dosagens, mas imaginava que isso seria o suficiente para esquecer a dor por alguns momentos.
Há dias tinha a impressão que lhe enfiavam agulhas na cabeça, por vezes pensou que eram bigornas caindo do teto. Sob a luz ameaçadora do consultório, disse que tudo bem.
Observava as pessoas a sua volta enquanto aguardava sua vez de receber a divina dose que acabaria com os males daquela manhã. Era mais forte que as 500 miligramas que tomaria nos próximos dias. Esperava ansiosamente sua vez enquanto observava uma mulher branca, pálida, sofrer com espasmos involuntários e calafrios ao seu lado e mais adiante um rapaz que acompanhava desde a recepção. Seu rosto se anuviava cada vez que a dose descia com mais força e entrava em seu braço. O rapaz fechava os olhos, como se de algo adiantasse.
- Senhora, sua vez – chamou o enfermeiro.
Ela fechou os olhos, mas tinha uma atração inexplicável por agulhas entrando em sua veia. Antes fossem drogas, pensava em segredo.
- Vai ser rápido, você vai ver.
Que seja. Em menos de um minuto sentiu o corpo amortecer e agradeceu aos homens pela capacidade divina de criar remédios sintéticos.
O marido da mulher pálida enfiava a cabeça pela porta a cada minuto e o olhar preocupado lhe deu um tanto de inveja.
Saiu. Olhou o sol. E conseguiu olhar sem dor pela primeira vez em cinco dias.
- Malditos fazedores de vodu! Deviam ao menos me poupar o sono.
Foi para casa cambaleante. Desejando nunca mais voltar naquele lugar cheirando a álcool e lembrava tempos remotos que sua memória queria esquecer.
Eu devia aprender a preparar as doses eu mesma, assim aliviaria a dor sem abandonar o conforto do sofá.
A ideia do vodu tomava sua cabeça enquanto a dor ia sendo deixada de lado. Mas por que me quereriam tanto sofrimento?
Ah sim, por conta do amor sofrido. Mas só por isso?
Malditos fazedores de vodu...

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

O não-filho

Acordou num sobressalto. Olhou os seios descobertos para conferir que ainda lhe pertenciam.
Aquela imagem do sonho lhe causava arrepios. Como uma criatura pequena poderia se alimentar de seu leite? Como um ser conseguiria sobreviver as custas de um líquido envenenado pela vida?
Mesmo sendo um sonho, sabia que não poderia cuidar da criança. Ela não lhe pertencia. Era sua, isso sabia. Mas não queria tê-la.
Sofreu por saber que não poderia ser mãe. A natureza não a tinha agraciado com os dons da maternidade. Os homens sabiam disso. Era como a lenda das Amazonas. Ela era a típica guerreira, porém, de ventre seco.
Depois de um tempo os homens fugiam. O relacionamento não evoluía. Seria para sempre a guerreira que os homens temem por não saberem subjugar.
E nesse sonho tinha certeza disso. O filho, que tentava alimentar com muito esforço, seria arrancado, dado a outra mulher com mais amor de alma.
Não tinha um pai. O sonho não mostrara. Se ele existisse, não seria tão pesaroso. Seria apenas o fim previsível de muitas mulheres.
Era por isso que ela não podia tê-los, os filhos. Imaginava-os como fins. Não eram começo de nada. Era fim da vida, da beleza, do domínio de seu próprio corpo. Seus seios não seriam seus, mas sim serviriam de alimento.
Seu ventre seria revolvido por nove meses, nos quais seria infeliz. E depois, nem o filho seria seu. Assim como não fora de sua mãe.
Deixou o sonho ruim de lado. Garantiu que ainda tinha seu corpo intacto. Durante aquele dia, evitou olhar as barrigas das grávidas que circulavam e se multiplicavam a sua volta.

desapaixonar-se

Logo depois de se aventurar sob uma chuva torrencial, percebeu que não queria ser.
Despida de todo o resto de beleza que lhe restara, se olhava no reflexo das vitrines e se odiava por ter o cabelo desgrenhado, a pele pálida e o corpo fora do padrão.
Não lhe importava quantos olhares arrastasse enquanto caminhava torpe pelas poças de água que aumentavam a casa minuto: ela estava desapaixonada.
E desse mal sofria a cada mudança no ciclo lunar. Eram os dias amarelos e quentes que lhe tiravam a paixão, lhe davam um tom estranho a cor dos olhos e dos cabelos e estragavam a combinação de suas roupas.
Estava particularmente irritada naquela tarde. Seu humor de noite bem dormida logo fora destruído pela irritação visível com o guarda-chuva quebrado.
Tentou, riu, mas logo jogou fora aquela porcaria azul que de nada protegia. Mas enquanto caminhava sentiu falta da cobertura que há pouco escondia levemente seu rosto. Agora estava ali, feito uma criatura de gesso se desfazendo. Fugia dos olhares e tentou se refugiar dentro de sua fértil imaginação.
Quando o ônibus jogou água na única parte seca de sua roupa, voltou a vida real.
Chegou em casa e amargou suas escolhas.
Por que não casara cedo? Por que deixara a família longe e se refugiara numa cidade hostil? Por que insistia nessa vida sombria?
Era tão difícil entrar no padrão.
No dia seguinte, quando logo cedo percebeu que não era agraciada pelo bom gosto no vestuário e quem dirá pelas qualidades estéticas, pensou em desistir.
E para onde iria? O mundo bem melhor que a mãe cantou em músicas de ninar na infância não existia ainda.
Tudo o que restava era esse lugarejo quente e provinciano, que alternava entre chuvas sem fim e dores de alma.
Pacientemente, esperaria a próxima virada da lua, quando então o que queria dentro de algum olhar apaixonado refletido no espelho.
Esperaria a próxima chuva lavar a alma e só então ousaria olhar para o alto e buscar algo para apaixonar-se.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

When I hit the bottle


E mais uma vez ela foi para a casa arrastada.
- Acho que não me lembro de tudo o que aconteceu, dizia a moça em meio a confusão de sua amnésia.
- Eu cuidei de você, não tem problema, respondeu o rapaz que havia acordado ao seu lado naquela manhã quente feito o inferno.
Cada uma de suas células gritava e pedia desesperadamente para não existir em meio aquela enxurrada etílica. Ela se arrependeu. Disse que não aconteceria de novo.
Aconteceria. Ela e sua falta de limite misturada a vontade de se esquecer dentro de um copo.
“A amnésia é uma invenção social”. Sim, e é também um bom recurso ao que queremos esquecer.
Desde a noite anterior, quando quis outro e nesse outro nada encontrou, sentia que precisava esquecer algumas partes da vida. Mas de nada adiantou. Lembrava desse, do outro, dos copos, da vontade de deixar o estômago na privada.
Levantava de hora em hora para se forçar a melhorar. Não melhorou até o momento que se despediu da última gota da noite passada.
Acordou no dia seguinte com espírito de novo ano. Planejou todos os próximos e ficou feliz por ainda ter tempo de remediar alguns erros.
Mesmo assim, seu inconsciente tinha certeza que em menos de quarenta horas se despiria dessa capa de esperança e se perderia mais um pouco.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Só mais uma coisa


Cansei de problema pequeno
Cansei das bolhas sociais
Das pessoas de problemas pequenos
Daquelas que também tem raciocínios pequenos
Cansei dessa mesmice
Dessa reclamação burra de quem não tem do que falar
Cansei. Hoje eu não quero mais.
E porque cansei vou-me embora
Para onde as estrelas explodem
Virar algo a mais que alguém cansado, planejado, com aparência de pré-montado
--
E dessa aparência pré-moldada, montada, dourada, eu me desfaço.
E dos problemas... tão pequenos... que problemas?